Rebeldes e conservadoras

Qual é a imagem da rebeldia feminina hoje, nos Estados Unidos? Que tal uma ativista de direita que clama por Deus, porte de armas e quer acabar com impostos? Sim, tal qual a ex-miss e ex-governadora que imagina avistar a Rússia do seu quintal alasquiano.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

As primárias eleitorais norte-americanas sacudiram, como se esperava, o establishment do Partido Republicano com expressivas vitórias de candidatos apoiados pelos Tea Partiers. O saco de gatos político com o nome inspirado na revolta do chá no Porto de Boston, em 1773, despontou em 2009 como reação ao pacote de estímulo aprovado pelo governo Obama. Sua vanguarda seria dominada por homens brancos. A homogeneidade racial continua, mas uma pesquisa revelou que mais da metade dos que se identificam com o movimento são mulheres. E as mulheres ocupam mais postos de comando nos variados agrupamentos do Tea Party do que na velha hierarquia do sistema bipartidário.

Mas vejam que falei em rebeldia feminina e não feminista.

A mais vendida biografia nos Estados Unidos em 2009 foi Going Rogue, de Sarah Palin. O título brincava com a ambiguidade da palavra rogue, que pode significar perigo ou até uma traquinagem brejeira.

Enquanto se diverte sugerindo sua candidatura à presidência em 2012, Sarah Palin cruza o país abençoando candidatos como a vitoriosa Christine O"Donnell, de Delaware, que na véspera da eleição da terça passada foi classificada de biruta por ninguém menos do que o homem que fazia chover na política da era Bush, Karl Rove.

Embora o Partido Democrata ainda produza o maior número de mulheres candidatas, este ano, nas eleições intermediárias, o Partido Republicano ofereceu mais candidatas mulheres desafiando políticos eleitos.

O efeito Sarah Palin é evidente, já que a ex-governadora faz questão de apoiar mulheres na política e, entre uma twitada e outra de seu besteirol, promove o poder das mulheres que chama de mães ursas. É possível combater a liberdade de reprodução feminina e promover a emancipação da mulher? Não, é a resposta curta, mas menos do que satisfatória.

Embora o Tea Party ainda seja uma colagem de slogans libertários, ele se distingue da direita cristã que tomou o país de assalto em 1994 por se distanciar de interferência na vida privada e combater o ativismo governista - de impostos a instituições, como o Ministério da Educação. É uma agenda ultraconservadora e também um ataque à hierarquia republicana.

A rebeldia feminina de direita hoje, ao contrário da anterior, não sugere que a mulher vá pilotar um fogão. Sim, é complicado, quando as "poster girls" do movimento, como Palin, denunciam o aborto como obra do Diabo e a novata Christine O"Donnell é atração do YouTube num vídeo ridículo da década de 90 condenando a masturbação - "luxúria = adultério".

A ausência de boas séries de comédia política na TV americana há de se dever à fartura oferecida pela galeria de personagens reais. Se conseguirem trancar numa sala os melhores redatores de sitcoms, duvido que a imaginação deles crie uma figura como Carl Paladino, o candidato republicano ao governo de Nova York, responsável por uma correspondência eletrônica que incluiu o casal Obama representado como um rufião e uma prostituta, e cenas de sexo bestial. Calma, a eleição, salvo uma catástrofe bíblica, será vencida pelo democrata Andrew Cuomo.

A mulher democrata que mais inspira as norte-americanas está ocupada no Departamento de Estado e seria improvável ver Hillary Clinton numa nova corrida, como vice de Obama.

Onde está a nova geração de mulheres boas de briga?

A manchete recente do New York Times anunciou: "A Filha de John McCain É Uma Rebelde". Meghan, a louríssima e tatuada filha do dinossauro do Arizona derrotado por Obama em 2008, está destinada à lista de best-sellers com seu novo tomo Dirty Sexy Politics (Política Suja e Sexy), em que aparece na capa enroscada na tromba de um elefante (o animal símbolo do Partido Republicano). Companheiras, sinto informar que rebeldia política aqui, nestas praias, tem se resumido a pinceladas de liberalismo no comportamento - os gays são OK -, mas nem um cabelo fora do lugar, toneladas de maquiagem e roupa de grife.

E na cultura? Lady Gaga vestida de carne vermelha para sugerir que não é mais um corte de chã de dentro no moedor corporativo? Vou saltar deste bonde hipócrita. Nem das tripas do seu guarda-roupa a megaestrela pop faria um coração capaz de inspirar mudança.

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