Rebeldes e comportados num mesmo território

Ao lado de nomes consagrados como os de Gerhard Richter, a exposição Se Não Neste Tempo reúne obras de pintores alemães mais jovens como Albert Oehlen, Katherina Grosse e Tim Eitel e veteranos da ex-Alemanha Oriental que ainda hoje exercem enorme influência sobre os mais novos, como Mattheuer e Tübke, vistos com reverência por aqueles que nasceram na década de 1960 e cresceram num país dividido e marcado por diferenças ideológicas que deixaram profundas cicatrizes na linguagem artística das duas Alemanhas antes da queda do muro, em 1989. É certo que muitos artistas que não comungavam do credo socialista migraram para o Ocidente e se tornaram grandes estrelas da República Federal Alemã, entre eles Baselitz, Penck e Gerhard Richter.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

Os dois primeiros viraram, inclusive, expoentes do movimento neoexpressionista nos anos 1980, que recolocou a arte alemã no cenário internacional. Com a queda do Muro de Berlim esperava-se um diálogo maior entre os artistas da ex-Alemanha Oriental com a Ocidental, mas não foi o que aconteceu. Artistas da chamada Geração 90, como Ackerman ou Neo Rauch, não se deixaram comover pelo discurso quase punk de pintores como Büttner ou Kippenburger. Vivem igualmente a distância de seus contemporâneos da chamada Escola de Hamburgo - Meese, Daniel Richter -, voltados para a contracultura. Em síntese: artistas da ex-Alemanha Oriental parecem inclinados a ter uma visão menos niilista. Isso não significa maior ou menor qualidade, mas apenas uma diferença de abordagem.

Artistas da ex-República Federal Alemã como Werner Büttner, Albert Oehler e Martin Kippenberger não têm pudor em assumir uma pintura de caráter autorreferencial, o que explica a profusão de autorretratos e a pintura narrativa da turma, repleta de cenas do cotidiano e até das aventuras sexuais de seus autores, como no caso de Kippenberger, alcoólatra que morreu aos 44 anos de câncer no fígado.

Nem todo os jovens artistas da mostra seguiram seu caminho. Há, por exemplo, o trabalho geométrico de Thomas Scheibitz, de 42 anos, que retoma o caminho da pintura de superfície dos anos 1950. O antípoda de Kippenberger é Tim Eitel, que foi orientado dentro dos princípios rígidos da Escola de Leipzig por Arno Rink e pinta como se criasse planos arquitetônicos com blocos monocromáticos em que entra, de forma quase clandestina, figuras de animais ou pessoas.

Eitel tem 39 anos, quase a mesma idade de Werner Büttner, que os diretores alemães de museus adoram odiar por fazer exatamente o contrário: uma pintura descuidada, expressionista e suja como a das crianças. Pode ser uma promessa, se não desaparecer precocemente como Michel Majerus, morto num desastre de avião em 2002, aos 35 anos.

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