Paula Kosstaz
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Rebeldes com causa

Grupo monta versão teatral do filme alemão The Edukators, do cineasta Hans Weingartner

MURILO BOMFIM, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2013 | 02h13

Quando o ator e produtor Paulo Sanábio saiu da sessão do indicado à Palma de Ouro The Edukators, no Festival do Rio de 2004, estava tomado pelo espírito revolucionário do longa. Pensou que fazer projetos teatrais era a sua forma de revolucionar. Estava plantada a semente da montagem Edukators, adaptação do filme para teatro que estreia hoje no Sesc Belenzinho.

No enredo, Peter e Ian (interpretados por Sanábio e Fabrício Belsoff, respectivamente) são jovens insatisfeitos com a desigualdade causada pelo capitalismo. Em uma tentativa de mudar o mundo, invadem mansões para alterar a configuração da mobília, sem danificar os objetos. É uma forma de "educar" os magnatas, que se chocavam ao encontrar a bagunça e ler o bilhete que diz "Seus dias de fartura estão contados", marca dos rapazes autointitulados edukators.

Jule (Natália Lage) é a namorada de Peter e, ao contrário dos donos das mansões, representa um outro lado do capitalismo: garçonete recém-desempregada, está atolada em dívidas por ter batido no carro do milionário Hardenberg (Edmilson Barros), que cobra a conta. Quando descobre as ações de Peter e Ian, vê a oportunidade de invadir a casa de seu credor e o faz, em um ato de rebeldia. A aventura termina no sequestro do magnata, o que gera um embate duplo - de gerações e classes sociais.

"Por mais que a atitude dos jovens possa parecer ingênua, é sempre muito legal ter esse ímpeto à rebeldia, esse desejo de mudar o mundo", diz o diretor da montagem, João Fonseca. A peça, que estreou em janeiro no Rio, é a primeira adaptação internacional do texto do austríaco Hans Weingartner.

Assim como Sanábio, Fonseca assistiu ao filme quando estreou no Brasil, em 2004, e ficou surpreso em ver um assunto que parecia esquecido tratado de uma maneira nova e interessante. "Pensei 'Ainda tem isso? Como é que é isso hoje?'", conta o diretor, que deu continuidade à pareceria com Sanábio, com quem trabalhou em espetáculos como a peça R & J de Shakespeare - Juventude Interrompida e A Ratoeira.

A dupla convidou o dramaturgo Rafael Gomes para fazer a adaptação depois de assistir a Música para Cortar os Pulsos, espetáculo que escreveu e dirigiu. Segundo Fonseca, houve uma identificação imediata entre os estilos de ambos na direção. A afinidade foi confirmada ao longo do processo: Gomes entregou uma versão completa do texto, mas encontrava o elenco quinzenalmente para ver os resultados no palco e discutir alterações. "Uma peça não é algo sólido em cima do qual o diretor e os atores têm de se virar. A dramaturgia está a serviço de um processo maior que, no caso, é transpor esse filme para o palco", diz o escritor.

Para Gomes, o que mais pesou no processo de adaptação foi a responsabilidade em respeitar o texto original. O desafio era se manter no limiar entre não fazer uma cópia do filme, mas ter fidelidade. A peça mantém a ideia do longa, tendo apenas algumas alterações necessárias à transposição ao palco.

A mudança mais visível é a inserção de monólogos. "O Ian, por exemplo, é um personagem que tem cenas no filme para construir o caráter político dele. É uma construção que se dá pela ação, mas que seria impossível reproduzir no teatro", explica o dramaturgo. No palco, o perfil de Ian é transmitido em uma fala solitária de Fabrício Belsoff.

Um ponto importante do filme é o triângulo amoroso formado entre os jovens revolucionários que, ao contrário do coroa rico, não lidam bem com a traição. No filme, Hardenberg entende o que acontece apenas pelo comportamento dos jovens, sem ver nada explícito. É ele que fala sobre o assunto com naturalidade para Peter que, ao descobrir que a namorada o traiu com seu melhor amigo, fica enfurecido. Na montagem, o dono da mansão, ao entrar em casa, flagra Ian e Jule aos beijos e, em uma conversa durante o sequestro, conta o caso a Peter. "O flagra serve para criar uma linha de tensão, para criar uma ruptura entre expectativa e resultado. Tem que manter a ação, senão o público dorme", brinca.

Outra forma de preservar essa movimentação e, de quebra, aproximar o público dos personagens, é mudar de ambiente no meio do espetáculo. Quando apresentada no Rio, a peça iniciava no café do Oi Futuro e, quando o trio invadia a casa do milionário, o público era deslocado, pelos próprios atores, para dentro de um teatro, sob uma excitante trilha sonora. "Vamos manter essa configuração no Sesc Belenzinho, mesmo que o espaço seja maior", diz Fonseca, que deve limitar a 60 - no máximo 80 - lugares o teatro que tem capacidade para o dobro de pessoas.

Para Natália Lage, a invasão é uma das cenas mais difíceis de executar. "Faz parte de uma tensão que vai da ideia de entrar na casa até a estabilização do sequestro. É muita de ação, todos têm de estar bem afiados", diz a atriz que em nenhum dos cem minutos do espetáculo sai de cena. "É claustrofóbico, não dá para fazer uma horinha, tomar um café, checar o telefone. Mas eu até prefiro, assim me mantenho sempre dentro da personagem."

Depois de temporada carioca de sucesso e de uma rápida passagem por Juiz de Fora, a equipe está ansiosa para a apresentação em São Paulo. "Aqui o público está acostumado a ver peças mais densas", diz Natália.

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