Reaviva mito Maria Machadão

O chef de cuisine Paulinho Martins, que administra o restaurante e centro cultural Bataclan, em Ilhéus, recebeu de um senhor nonagenário um presente inusitado no final do ano passado: um retrato de mulher, datado de 1927, que atestaria a existência real de uma das personagens famosas de Jorge Amado, a Maria Machadão, que será vivida na nova versão da história por Ivete Sangalo.

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h09

Antônia Machado, a Maria Machadão, teria sido, nos efervescentes anos 1920, a cafetina-mor do prostíbulo Bataclan, local que realmente existe em Ilhéus (assim como sua contrapartida "séria", o clube masculino Vesúvio - contam até que teria havido um túnel ligando um e outro). É quase consenso que é um personagem fictício, mas seu protagonismo cresceu a partir da novela Gabriela (Globo, 1975), adaptada por Walter George Durst e dirigida por Walter Avancini. Eloísa Mafalda, com seu cacho pega-rapaz no rosto, deu contornos à personagem.

O senhor que procurou o chef de cuisine com o retrato é conhecido em toda Ilhéus simplesmente como Popof, e é uma das personalidades da vida local. "Todos os sábados bebemos cachaças juntos", conta Paulinho. "Ele frequentou o Bataclan na época em que havia show de tango e cancã, e ainda era um lugar de encontros. Ele mesmo teve casos com várias meninas. Contava que a grana era tão farta que os coronéis acendiam charutos com notas de 500 réis."

A filha de Jorge Amado, Paloma, contou a Martins que havia tolerância com os bordéis na época. "Contam que uma vez o Jorge Amado, que tinha menos de 15 anos, e mais alguns amigos juntaram grana para pedir os serviços das moças. Maria Machadão soltou: Chispa daqui! O que Dona Eulália (mãe do escritor) vai pensar de mim?"

Os bordéis de Ilhéus viveram sua fase áurea até meados dos anos 40. Havia muito jogo na época. Quando proibiram o jogo, começaram a fechar. No Bataclan atual, construiu-se na parte superior dos fundos do sobrado uma "réplica" do quarto de Maria Machadão, com móveis e utensílios de época. Também há uma teatralização da vida mundana no Bataclan, encenada para clientes num pequeno palco no salão principal.

"Você pode criar histórias paralelas que surjam de indicações do autor", afirmou Walter Avancini na época de Gabriela. "Jorge Amado mal cita Maria Machadão, mas a partir daí criamos uma personagem com mais espaço".

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