Realismo visceral

Rebeldia marca obras de autores modernistas latinos, como o salvadorenho Castellanos Moya

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2013 | 02h09

Horacio Castellanos Moya fez um exercício de estilo em Asco, no qual pretende imitar o austríaco Thomas Bernhard, tanto na prosa, baseada na cadência e na repetição, como na temática, expressando uma crítica a seu país de origem, exibindo a demolição cultural e política da capital San Salvador.

Uma visão realista da América Latina. Também uma proposta que vai nortear a coleção Otra Língua, coordenada por Joca Reiners Terron. "A literatura em espanhol é a mais rica da atualidade", acredita. "Primeiro, pela variedade de registros linguísticos da América Latina. Segundo, pela força da tradição e pelo tamanho do público. O castelhano é a terceira língua falada no mundo. E sem dúvida, pela rebeldia e pelo inconformismo em relação aos ditames do mercado. A ficção de países como México, Argentina, Chile e Colômbia tem preferido implodir com a cartilha a seguir regras."

Terron não acredita, porém, que o realismo mágico - que consagrou a prosa do continente - esteja morto. "É um clássico moderno, e todo clássico sempre gera imitadores e perpetuadores", observa. "Não é necessário citá-los, basta verificar os autores latino-americanos publicados com frequência no Brasil. Por outro lado, desde os anos 90 a região tem produzido mais obras realistas. A narcoliteratura mexicana é um exemplo, e até mesmo na Argentina - cuja ficção é marcada pelo fantástico - essa tendência é clara."

Os próximo editados serão os argentinos César Aira (Como me Tornei Freira) e Fabián Casas (Os Lemings e Outros), que se juntarão a Horacio Castellanos Moya que, dos EUA, onde hoje vive, respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Com Asco, imaginava que produziria uma reação tão visceral?

Não, não imaginava. Comecei a escrever esse texto sem ter consciência de que estava escrevendo um livro. No início, era mais um exercício lúdico, de imitação, como se para me libertar de todas as leituras de Thomas Bernhard que havia feito nos meses anteriores, porque era uma influência muito pegajosa. Logo, descobri que já tinha muitas páginas escritas e que podia seguir adiante. Quando o terminei, em pouquíssimas semanas, guardei-o numa gaveta. Não sabia que aquilo era um livro, ou se tinha valor, ou se valia a pena publicar. Alguns anos depois, uma editora de El Salvador o leu e me disse que queria publicá-lo. Nunca imaginei que geraria reações tão intensas.

Qual provocação buscou fazer na obra?

Claro que o livro é uma provocação, mas uma provocação literária, a partir de uma construção literária de um jogo de imitação de um autor austríaco. O problema é que muita gente o leu como se o que diz o personagem fosse meu próprio ponto de vista, como se fosse um livro político que quisesse vender uma verdade. Alguns o leram com humor e desfrutaram do mecanismo literário; outros se aborreceram porque não têm imaginação literária, porque não leem livros literários e acreditaram que se tratava de um panfleto político.

Acredita que uma literatura que se baseia na felicidade e no êxito não é criadora?

Acredito que a literatura que me agrada e que me marcou é a que apresenta os grandes problemas e dilemas do homem, seus sofrimentos e suas dúvidas, sua vulnerabilidade, seu desemparo no universo, sua complexidade, sua maldade e sua bondade. A felicidade e o êxito são palavras que estão fora de meu vocabulário literário e vital.

O senhor se identificaria com o personagem principal?

Não, o personagem principal é um neurastênico com o qual não gostaria de tomar uns tragos. Seguramente, dei-lhe alguns traços de minha personalidade, mas muito exagerados. Suas opiniões são um mosaico das opiniões que escutei em diversos círculos da época. Sempre que volto a El Salvador, há pessoas que me dizem que devo escrever uma segunda parte de Asco.

Por que escolher a figura de Thomas Bernhard como referente em seu romance? Trata-se de uma construção literária porque Bernhard era um escritor austríaco que detesta a Áustria?

O caso é como lhe disse antes: eu estivera lendo Bernhard e ele havia me envenenado. Bernhard é um escritor víbora: tem uma prosa musical que zumbe e hipnotiza o leitor, e uma presa venenosa que crava sem a menor compaixão. Depois de ler vários livros de Bernhard, tratei de imitá-lo para me libertar dele.

Sua geração sofreu um desencanto com o tipo de sociedade que surgiu da guerra civil?

Sim. Da guerra civil surgiu uma nova institucionalidade democrática. Esta é a parte positiva. Mas não houve mudanças no social e no cultural. A classe política acertou suas contas e conseguiu construir um sistema democrático, mas na vida cotidiana o país se manteve na mesma miséria, na mesma chatura, sem horizontes.

Em seus romances, a política aparece nos personagens, mas não tanto nas tramas. Por quê?

Eu não escrevo romances de gênero político, nos quais a trama se desenvolve em torno da luta pelo poder. Meus personagens são outsiders ou pessoas comuns, afetadas pela violência política generalizada. Alguns chegam a tomar parte dessa violência, mas não como ideólogos, mas como seres que fazem as canalhices que fazem para sobreviver. A política é a atmosfera, a paisagem de fundo na qual se desenrolam meus romances. A luta estrita pelo poder não é meu tema. Os políticos profissionais não me atraem como personagens.

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