Realismo mágico latino-americano, a maior influência

Ensaio: Giorgio Sinedino

GIORGIO SINEDINO É DIPLOMATA BRASILEIRO, , TRADUTOR, ESPECIALISTA EM PENSAMENTO , CHINÊS. RECENTEMENTE TRADUZIU OS ANALECTOS, , PELA EDITORA DA UNESP. PESQUISADOR , VISITANTE NA UNIVERSIDADE RENMIN EM PEQUIM, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2012 | 03h13

A carreira literária de Mo Yan desenrolou-se conforme os padrões usuais, por meio da publicação de contos e novelas em periódicos especializados governamentais. Seu primeiro grande sucesso ocorreu em 1986, com a publicação da novela Sorgo Vermelho: Cenas da vida de Um Clã (honggaoliang: dajiazu) na conceituada revista Literatura do Povo (renmin wenxue), seguido do importante Canções do Alho do Paraíso (tiantang suantai zhige).

Mo Yan obteve popularidade no exterior com a adaptação de sua obra para as telas no filme Sorgo Vermelho, de Zhang Yimou, lançado em 1988 e que obteve o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Tal sucesso não foi por acaso. Em muitos sentidos a literatura de Mo Yan pode ser comparada aos filmes da chamada "Quinta Geração" do cinema chinês. Ambos são produto da política de "Abertura e Reforma" de Deng Xiaoping do final dos anos 1970, que concedeu ampla liberdade de expressão e criação artísticas após a repressiva década da Revolução Cultural. Consequentemente, são obras marcadas por um intenso sentimento de desencanto com o autoritarismo familiar e político, sem contudo dispor de alternativas para construir uma nova realidade.

Durante a década de 1980, o governo chinês passou a estimular a tradução e publicação em massa de literatura estrangeira. Nesse contexto, o "realismo mágico" latino-americano tornou-se um dos elementos do estilo de Mo Yan, batizado em chinês de "Buscando as Raízes" ("xungen wenxue").

O escritor produziu intensamente durante a década seguinte, cujo maior sucesso foi o romance Seios Fartos e Quadris Largos (fengxiong feigu), que conquistou o mais caro prêmio literário na China. A partir do ano 2000, a reputação de Mo Yan como grande literato se consolidou. Seleções de suas obras se tornaram currículo obrigatório do vestibular chinês e em 2006 ele foi agraciado com a 6.ª edição do prêmio Mao Dun, o mais importante do país. As obras mais recentes do autor mostram uma tendência arcaizante, em particular com o retorno às estruturas narrativas dos romances clássicos chineses, com uma linguagem mais liricamente carregada, por exemplo o aclamado Cansado de Viver, Farto da Morte (shengsi pilao), de 2008. O mais recente romance de Mo Yan, intitulado Rã, narra por meio de cartas as desventuras de uma parteira num vilarejo do interior da China.

Ao atingir sua maturidade criativa, os textos de Mo Yan são conhecidos por sua narração vigorosa, atribuída à capacidade do autor de produzir longas passagens em um curto espaço de tempo. O mundo intelectual de Mo Yan, contudo, não mudou desde sua primeira obra. É o mesmo ambiente rural, de pessoas rudes, desenvolvidas psicologicamente por meio do fluxo de consciência e objetivamente através do estranhamento. Talvez aí se perceba uma constante da literatura chinesa, a capacidade de desenvolver novos elementos dentro de uma aparente imutabilidade.

O Nobel de literatura deste ano foi concedido sob uma inusitada corrida às bolsas de apostas internacionais, centrada na competição entre Mo Yan e outro favorito, o autor japonês Haruki Murakami. Murakami seguiu como franco favorito até os últimos dias antes do anúncio do prêmio. Com o Nobel de medicina concedido ao japonês Yamanaka Shinya, a decisão sobre o prêmio de literatura adquiriu tom político nas imprensas da China e do Japão, galvanizadas pela disputa territorial entre os dois países sobre as ilhas chamadas Diaoyu em chinês ou Senkaku, em japonês. Ademais, as relações entre o governo chinês e a Academia Sueca vinham bastante debilitadas após a concessão do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente chinês Liu Xiaobo em 2010.

Comparados com os 19 prêmios Nobel do Japão em diversas categorias, a China contava apenas com dois "prêmios", ambos dados a dissidentes políticos, inimigos do governo chinês. Sem negar as credenciais artísticas de Mo Yan, trata-se do primeiro prêmio nobel concedido a um nacional chinês.

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