Realismo latino em narrativa correta

Elogiado por Roberto Bolaño, o guatemalteca Rey Rosa trabalha em Os Surdos oposição entre classes sociais

WILSON ALVES-BEZERRA, ESPECIAL PARA O ESTADO, WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR, AUTOR DE DA CLÍNICA DO DESEJO A SUA ESCRITA, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2013 | 02h22

A edição brasileira do romance Os Surdos traz na contracapa - a exemplo da versão original - trecho de uma frase de Roberto Bolaño (1953-2003) sobre seu colega da Guatemala: "Rey Rosa é um mestre consumado, o melhor da minha geração". Trata-se de um fragmento de uma das resenhas semanais da seção Entre Parênteses, que o chileno publicou entre 1999 e 2003. A frase completa sobre o livro Nenhum Lugar Sagrado (1998), inédito em português, é a seguinte: "O livro é composto por contos breves, distância na qual Rey Rosa é um mestre consumado, o melhor da minha geração, uma geração que, por outro lado, rendeu excelentes contistas". Afora a relativização presente no original, é preciso dizer que a brevidade é mesmo uma qualidade de Rey Rosa: seus diálogos são ágeis, suas descrições, reduzidas.

Bolaño, já em seu último ano de vida, no artigo "Rodrigo Rey Rosa em Mali, acho", absteve-se de comentar os dois últimos livros do amigo e optou por narrar o relato que ouviu sobre uma viagem dele de Paris ao Mali, percorrendo desertos e montanhas. É um Bolaño debilitado que se encanta com a vitalidade do amigo, a quem, no breve relato, tratou como personagem seu. A nos guiarmos pelo artigo, o Rey Rosa de Bolaño é um aventureiro viril que desbrava a África. O escritor de mesmo nome, que agora publica Os Surdos, é um pouco diferente.

Os personagens do romance não são aventureiros inquietos, mas moradores da Guatemala contemporânea, mais ou menos desenhados em tintas realistas e separados por extratos a uma vez étnicos e socioeconômicos: os ricos e os pobres, os aculturados e os indígenas ou mestiços. De um lado, a família de alta classe que orbita em torno ao banqueiro Claudio, de outro, o guarda-costas Cayetano, jovem e exímio atirador: figuras centrais numa sociedade dominada pelo crime, pelo interesse pessoal e pela paranoia.

O centro da narrativa é o desaparecimento súbito da filha do banqueiro - Clara - que, entretanto, continua telefonando para a família de diferentes partes do mundo afirmando estar tudo bem. O tema da violência e do desaparecimento de mulheres foi explorado à exaustão no inacabado 2666, de Bolaño, tendo a região de Ciudad Juaréz, no México, como ponto de partida.

O relato de Rey Rosa é contado de modo fragmentado, há sucessivos episódios que retomam o anterior e o recontam sob outro ponto de vista. Não pense o leitor, entretanto, que se trata de uma narrativa experimental: o procedimento - que poderia ser chamado flash back explicativo - tem um efeito estabilizador, deixa os fatos cuidadosamente esclarecidos e coloca o leitor na cômoda posição de quem vai decifrando o mistério. Exatamente o contrário do amigo Bolaño, que em 2666 literalmente chegava a produzir náuseas ao submergir quem o lesse num lamaçal de cadáveres e de falta de sentido. Em Os Surdos, há um tom quase farsesco, dado pela hipocrisia dos personagens, que o esquemático protagonista Cayetano - jovem interiorano com uma ou duas ideias fixas - não chega a problematizar.

É preciso dizer que a construção do romance é engenhosa e bem calculada, mas o efeito que se obtém é sobretudo o do entretenimento, não o de uma experiência forte com o "pesadelo da história", como dizia Joyce. Nem mesmo o tribunal maia que encerra o livro é o bastante para que a máquina narrativa se mova de modo a causar impacto.

Rey Rosa é do rol dos autores realistas, que tematizam nossa época, como Juan Gabriel Vásquez e Juan Pablo Villalobos. É capaz de contar com correção uma narrativa que se funda na história política de seu tempo. Além disso, constrói, com bons fundamentos, um edifício com os costumes e manias de sua sociedade. O selo de qualidade do amigo Bolaño, porém, se, por um lado, ajuda a vender o livro, por outro, deixa o leitor num grau de expectativa que a obra pode não contentar de todo.

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