Realismo em foco

Adolfo Leirner registra modo perverso de lidar com animais mortos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2013 | 02h15

Primo Levi (1919-1987), de quem a editora Rocco acaba de lançar uma nova edição de É isto um Homem?, diz, logo no começo de seu livro, que vivia num mundo só seu, "um tanto apartado da realidade", quando foi detido pela milícia fascista, em 13 de dezembro de 1943. Deportado para Auschwitz em 1944, Primo Levi fala em seu livro de um mundo que não mais seria o mesmo depois dos campos de extermínio. A crueldade de reduzir o ser humano a um "sapo no inverno" é denunciada logo no prólogo dessa vigorosa obra, cujo título o fotógrafo Adolfo Leirner tomou emprestado para uma insólita imagem que domina sua exposição Crueldades Impessoais, com curadoria de Fábio Magalhães: a de dentaduras expostas numa vitrine marroquina. Destituídas de função, elas lembram que esses dentes foram feitos para criaturas vorazes, que estraçalham outros animais com violência insana, fazendo arranjos decorativos com seus corpos ou expondo sua cabeças como amuletos em abatedouros.

Crueldades Impessoais, diz Adolfo Leirner, deve esse título ao modo perverso com que homens tratam indefesos animais sem refletir sobre seus atos. Médico cardiologista respeitado, que salvou milhares de vidas em seus 77 anos, Adolfo é um fotógrafo ativo, mas, ao contrário dos parentes artistas mais conhecidos - a mãe escultora Felícia Leirner (1904-1996) e os irmãos Giselda e Nelson -, fez poucas exposições.

Nesta, ele mostra animais expostos em açougues e matadouros da China, Japão, Laos, França, Inglaterra, Marrocos, Bolívia e Brasil. Sem interferir, apenas registrando o que via, Adolfo montou essa série que, curiosamente, dialoga criticamente com algumas obras de artistas como Soutine (Carne de Vaca Esfolada, 1925), Wim Delvoye e até o macabro Damien Hirst. Força de hábito. Desde criança ele convive com artistas - o pai, Isay, foi diretor da Bienal de São Paulo, criador de um prêmio que revelou os pintores Arcângelo Ianelli e Tomie Ohtake.

Mas, ao contrário dos citados Soutine e Hirst, que usaram carcaças de animais para chocar, instalando-as num ambiente artificial, Adolfo observa que essas imagens não foram montadas como cenografia. "É tudo real", garante o fotógrafo. A ordem enrijecida desses corpos arranjados como naturezas-mortas incomoda, mas de uma maneira diferente das mórbidas imagens do fotógrafos Joel-Peter Witkin, que criou arranjos de flores em crânios humanos. "Nossa espécie dominou outras espécies e criou estratagemas para enfeitar a realidade", diz ele, apontando uma foto em que cabeças de lhama servem de amuletos na Bolívia.

Adolfo, que começou a fotografar aos 12 anos, já fez exposições com outros tipos de agressão, a primeira delas - apropriadamente chamada Os Iconoclastas - mostrando como lugares sagrados na Capadócia e em Jerusalém foram vandalizados desde a Antiguidade aos dias atuais. Homônimo do primo Adolfo Leirner, dono da maior coleção privada de arte concreta brasileira, que vendeu para o Museum of Fine Arts de Houston, o fotógrafo foi criado num ambiente artístico e desenvolveu, desde a adolescência, um olhar voltado para os clássicos da fotografia moderna - ele destaca o surrealista Man Ray e Edward Weston entre suas referências. "Ao 14 anos já frequentava o Foto Cineclube Bandeirantes, onde conheci Geraldo de Barros e Thomas Farkas", lembra Adolfo, que aponta entre seus contemporâneos favoritos Bill Viola e o hiper-realista australiano Ron Mueck.

CRUELDADES IMPESSOAIS

Galeria Fass. R. Rodésia, 26, V. Madalena, 3037-7349.

3ª a 6ª, das 13 h às 19 h; sáb., 11 h às 17 h.

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