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Realismo de filme, por Kaurismaki

Vencedor do prêmio da crítica em Cannes 2011, O Porto vale-se de citações para refletir sobre o tema da imigração

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h11

Festival de Cannes do ano passado - o júri presidido por Robert De Niro outorga a Palma de Ouro a A Árvore da Vida, de Terrence Malick, mas também premia O Artista, de Michel Hazanavicius (melhor ator, Jean Dujardin); e Drive, de Nicolas Wind Refn (melhor direção). Le Havre, de Aki Kurismaki, ganhou o prêmio da Fipresci, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica. O Artista fez o sucesso que você sabe no Oscar. Drive e Le Havre, com o título de O Porto, estreiam juntos - hoje. Não poderiam ser mais diferentes. Um filme de gênero e outro daqueles ensaios minimalistas e despojados, dos quais o autor finlandês possui o segredo. Pois, acredite, não são tão diferentes assim.

Nicolas Wind Refn encarou seu thriller como um conto de fadas (leia na página 6). Kaurismaki, para fugir ao filme de tese, também concebeu O Porto como uma fábula. A palavra vem do latim e designa a pequena narrativa alegórica que encerra ou sugere uma verdade ou reflexão de ordem moral. De cara, você pode até achar que Kaurismaki está se repetindo. O tom, os personagens parecem uma repetição dos filmes anteriores do diretor - O Homem sem Passado e Luzes do Crepúsculo (Les Lumières du Faubourgh). O protagonista engraxa sapatos, tem essa mulher dedicada - que, como diz a dona do bar que frequenta, "ele não merece". Tudo muito parecido, e anticlimático, mas aí Kaurismaki confronta seu personagem com a dura realidade.

Ele assiste à polícia que abre um contêiner e descobre todos esses imigrantes clandestinos. Na noite, Marcel Marx - é o nome do personagem -, interpretado pelo ator fetiche do diretor, André Wilms, ouve esse choro e é do menino africano que conseguiu fugir e agora vai precisar de ajuda. Marcel o recolhe. Ele se chama Idrissa, um nome de cinema, que remete ao diretor Idrissa Ouedraogo, e isso vai fazer toda a diferença. De que forma? Em Cannes, Kaurismaki disse que não conhecia Le Havre e nem se interessou de se documentar para o filme, nisso seguindo um caminho oposto ao de Nicolas Wind Refn.

O autor dinamarquês preocupou-se com a topografia de Los Angeles e encontrou em Ryan Gosling o cicerone perfeito para chegar aos locais e entender os personagens. Aki Kaurismaki seguiu outra via - a do próprio cinema. Não existe outro realismo que não o cinematográfico em O Porto. A constatação poderá aumentar sua fruição, mas não é indispensável para o bom entendimento do filme. A França de O Porto é toda filtrada pelo cinema. Le Havre, como sabe o cinéfilo, fornecia o cenário para o realismo poético de Cais das Sombras (Quai des Brumes), de Marcel Carné, com Jean Gabin e Michèle Morgan. Carné fez vários filmes com uma estrela francesa dos anos 1930 e 40 chamada Arletty. Não por acaso, é o nome da mulher de Marcel Marx na ficção de O Porto.

Mais referências? O policial interpretado por Jean-Pierre Darroussin, que vai perseguir Marcel Marx na tentativa de chegar ao garoto, veste a gabardine de Alain Delon no cultuado O Samurai, de Jean-Pierre Melville. E Jean-Pierre Léaud, o ator fetiche de François Truffaut e Jean Luc Godard, faz um delator tão estereotipado nos seus gestos que parece saído do clássico Le Corbeau, Sombras do Pavor, de Henri-Georges Clouzot. Como se nada disso bastasse, Kaurismaki evita ao máximo o naturalismo, mas nunca, antes, chegou ao extremo deste filme. Os personagens - todos - falam um francês perfeito (e acadêmico), o que acentua o estranhamento.

Brecht assinaria embaixo, mas o filme ainda segue rumos totalmente inesperados, como aquele abacaxi que o investigador coloca sobre a mesa. O figurado vira surreal. "É minha homenagem privada a(o surrealista) André Breton", admitiu o diretor. Os eleitores da Fipresci devem ter levado em conta todos esses fatores ao atribuir a O Porto o prêmio da crítica. De forma muito mais velada, e sutil, o filme de Kaurismaki dialoga com Welcome, Bem-Vindo, de Philippe Lioret, que provocou verdadeira sensação na França.

Recapitulando - Welcome era sobre instrutor de natação que treinava garoto árabe, outro clandestino, para atravessar a nado o Canal da Mancha, para que ele pudesse se reunir à sua amada, na Inglaterra. O filme provocou uma tal comoção que levou a uma mudança na lei que penalizava a ajuda aos clandestinos, na França. Agora, lá pelas tantas, Marcel Marx também tem de ajudar o garoto a atravessar o canal. Ele ganha a que parece uma ajuda inesperada (veja o filme), mas o importante é, como reconhece o diretor, as flutuações de comportamento da personagem da mulher de Marcel.

Arletty, até pelo nome, vira uma representação da própria França. No que não deixa de ser um recurso melodramático, ela é diagnosticada com câncer e seu estado se agrava. Arletty só conseguirá sobreviver por milagre e esse milagre fica associado à sorte do garoto, como se Kaurismaki quisesse dizer que a França só tem futuro, ou salvação, se encarar com humanidade seus imigrantes - coisa que o presidente Nicolas Sarkozy nunca fez, e menos ainda nos seus tempos de ministro do Interior, responsável pela máquina repressora do Estado nos governos de Jacques Chirac e Dominique de Villepin.

Para quem acha esse tipo de análise muito mirabolante, vale lembrar que Kaurismaki, indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro por Luzes do Crepúsculo, declinou da candidatura em protesto contra as políticas do ex-presidente George W. Bush. Em Cannes, ele criticou duramente o governo de Sarkozy e os dos países da União Europeia em geral. Ao longo do ano, a crise se agravou em toda a Europa e a situação dos clandestinos, que já não era boa, ficou ainda pior. Ainda bem que existe o cinema, belos filmes como (mais) este, de Kaurismaki.

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