Realismo brutal de War Witch

Com elementos de dois filmes vencedores do Urso de Ouro, o concorrente canadense/africano arrisca-se a ser considerado déjà vu pelo júri presidido por Mike Leigh e sair daqui da Berlinale sem prêmio algum. Se isso ocorrer, será uma tremenda injustiça para War Witch e seu diretor, Kim Nguyen. O filme conta a história dessa menina que é sequestrada por rebeldes na África e vira soldada de uma guerra que não é dela. De cara, ela é forçada a matar os pais. Mais tarde, para sobreviver, introduz uma batata na vagina, como a protagonista de La Teta Asustada, de Claudia Llosa. E ela espera um filho, resultado do estupro por seu comandante.

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / BERLIM, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2012 | 03h08

Isso não impede o cineasta nascido em Montreal e radicado em Quebec de fazer um filme de um frescor muito grande, e original. Com atores maravilhosos, War Witch alterna cenas de um realismo brutal com outras oníricas. A menina tem visões de fantasmas na selva, entre eles os pais, que não foram enterrados e o filme narra o trajeto de Komona, é seu nome, para voltar à aldeia para cumprir o ritual. Ela se envolve com um menino-soldado albino, e ele a leva para conhecer essa comunidade de albinos, no interior da África. Quando o filme começa, ela conta sua história para o bebê que carrega no ventre. E reza aos ancestrais para não odiar nem matar a criança, ligada a tanta dor e sofrimento.

A África mandou dois belos filmes aqui para o Festival de Berlim, mesmo que o de Nguyen seja, oficialmente, canadense. O outro foi Aujourd'hui, de Alain Gomis, do Senegal. Ambos trabalham o tema da morte, o do senegalês por meio desse homem que volta para casa para morrer.

Auf wiedersen, goodbye. A Berlinale de 2012 termina hoje com a cerimônia de premiação, que começa às 16 h do Brasil. Quem fica com o Urso de Ouro? O prêmio para o italiano Cesare Deve Morire, dos irmãos Taviani, seria bem aceito pelos críticos, já que o trabalho foi uma das raras unanimidades deste ano.

A premiação de Jayne Mansfield's Car seria mais polêmica, mas o filme, dirigido e interpretado pelo norte-americano Billy Bob Thornton, tem o tipo do realismo/naturalismo que está na essência do projeto de cinema de Mike Leigh.

O português Miguel Gomes tem de esperar que herr presidente esteja no seu dia de Topsy Turvy - o corpo estranho de uma filmografia quase toda social - para obter reconhecimento para o seu Tabu. Por deslumbrante que seja, o filme arrisca-se a ficar também sem o prêmio da crítica, que se dividiu. E o enviado do Estado, o que pensa disso tudo? Se prevalecesse o seu gosto, o Urso de 2012 ficaria entre o húngaro Just the Wind, de Bence Fliegauf, sobre a chacina de ciganos, e o africano de ontem, o mágico - e vibrantemente sonoro, com sua trilha de cantos angoleses - War Witch.

Faltam poucas horas para que o júri anuncie suas decisões. Não só por cortesia, claro, mas os alemães, donos da casa, têm sido premiados em todos os festivais recentes. O que eles merecem neste ano? Qualquer ator ou atriz dos três filmes - Barbara, de Christian Petzold; Home for the Weekend, de Hans-Christian Schmid; e Mercy, de Matthias Glasner (que integra a banda Home Sweet Home, de Hamburgo) - poderia levar muito bem os prêmios de interpretação e ninguém iria reclamar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.