Realismo amoroso italiano

Obra sobre Rossellini, Magnani e Ingrid Bergman inspira documentário

O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h11

LUIZ ZANIN ORICCHIO

Roberto Rossellini era o mais famoso diretor da Itália. Sua mulher, a atriz Anna Magnani, a mais conhecida e amada do país. A sueca, radicada nos EUA, Ingrid Bergman, a maior diva de Hollywood no final dos anos 1940. Protagonizaram o mais rumoroso triângulo amoroso do cinema da época, e, talvez, de todos os tempos, como está descrito no livro La Guerra dei Vulcani (A Guerra dos Vulcões), de Alberto Anile e Maria Gabriella Giannice. O caso foi levado às telas no documentário de Francesco Patierno que, em italiano, adota o mesmo título do livro. No Brasil, intitulado Bergman x Magnani: A Guerra dos Vulcões, o filme passará na Mostra paulista.

O interessante é que o título do livro, e do filme em italiano, evoca não apenas as chamas da paixão, mas dois filmes que saíram desse afrontamento amoroso, ambos ambientados nas ilhas vulcânicas da Sicília, as chamadas "Ilhas Eólicas". A história é fascinante.

Rossellini nunca havia estado naquelas ilhas quando sua atenção foi chamada para elas por três amigos sicilianos, de família rica e sangue nobre. Eram também apaixonados pelas ilhas e formularam a Rossellini, então famoso por filmes como Roma - Cidade Aberta e Paisà, convite para dirigir um filme lá ambientado. A atriz seria Anna Magnani, a diva italiana e atriz comovente de Roma - Cidade Aberta. Rossellini recebeu o convite com simpatia e olhou com interesse as imagens filmadas que os amigos sicilianos lhe apresentavam. Aquelas ilhas vulcânicas seriam, de fato, palcos ideais para os dramas humanos que sonhava filmar.

Mas, como era de sua natureza, Rossellini tinha vários projetos em mente, entre eles um convite de David O. Selznick, produtor de ...E o Vento Levou, e que estava em busca de talento europeu para fertilizar o então desértico ambiente cultural do cinema americano. Desse ambiente, a sueca Ingrid Bergman também se ressentia. Havia atendido ao convite do mesmo Selznick e emigrado aos EUA, onde ficara famosa por estrelar filmes como Casablanca, de Michael Curtiz, e Interlúdio, de Alfred Hitchcock. Queria projetos mais desafiadores e buscava diretores estimulantes.

Rossellini ainda estava em dúvida sobre o caminho a seguir em sua carreira e vivia um casamento tempestuoso com Anna Magnani, mulher de temperamento forte e caprichoso. O casal morava no Hotel Savoy, em Roma, quando Rossellini recebeu uma carta, salva de um incêndio da produtora Minerva, para a qual trabalhara. Vale a pena reproduzi-la: "Caro senhor Rossellini. Vi seus filmes Roma - Cidade Aberta e Paisà e fiquei entusiasmada. Caso tenha necessidade de uma atriz sueca, que fala muito bem inglês, não esqueceu o alemão, faz-se entender em francês e em italiano sabe apenas dizer 'eu te amo', estou pronta a fazer um filme com o senhor. Cordiais saudações, Ingrid Bergman".

É impossível que um homme à femmes como Rossellini não tenha visto no texto uma sutil cantada. Além disso, era lisonjeiro que a mais famosa atriz de Hollywood se oferecesse para trabalhar com ele. Não hesitou.

Deixou o Savoy às escondidas, telegrafou a Ingrid e começou colocar de pé o projeto que culminaria em Stromboli, história ambientada na ilha vulcânica tendo a sueca como a refugiada de guerra que se casa com um pescador. Desde o início, o caso entre Ingrid e Roberto não foi apenas profissional. Redundou num casamento longo, que gerou três filhos.

Furiosa, Anna Magnani reagiu no momento e no mesmo campo de luta. Integrou-se ao projeto original dos amigos sicilianos (que, eles também, se sentiam traídos por Rossellini), contrataram o diretor William Diertele e passaram a trabalhar em Vulcano, também ambientado em uma das Ilhas Eólicas. Anna Magnani vivia a prostituta que retorna à terra natal e é hostilizada por seu passado.

Duas mulheres rivais afrontavam-se em filmes rivais em duas ilhas vulcânicas no litoral da Sicília. O resultado não foi o que se esperava. Tanto Stromboli como Vulcano, estreados com poucas semanas de diferença, foram fracassos de público e de crítica. Não caíram no esquecimento, porém. Hoje Stromboli é visto como o trabalho inaugural da segunda fase de Roberto Rossellini; Vulcano, relançado há pouco em versão restaurada, tem sido bem reavaliado. São o que restou das lavas do passado.

LA GUERRA

DEI VULCANI

Autores: Alberto

Anile e Maria

Gabriella Giannice

Editora: Le Mani

(320 págs., 18)

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