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Realidades cabeludas

Se você, na falta de coisa melhor, me leu na semana passada, talvez se lembre da experiência que então relatei: uma tentativa de saber como é que o mundo trata uma pessoa fora dos padrões - no caso, um gordo. Devo admitir que a aventura, vivida como repórter, esteve longe de ser radical, pois não cheguei a fazer como aqueles atores que, no afã de entrarem no vasto papel de um obeso, se locupletam de calorias. Ao contrário, em minhas andanças atrás dos personagens até devo ter perdido uns gramas.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2014 | 02h07

Para mim não foi, em todo caso, uma experiência isolada. Na época, a mesma vontade de me pôr em pele alheia, como forma de melhor compreender um semelhante nem tão semelhante assim, me levou a investigar outras realidades mais ou menos cabeludas - entre elas, o calvário dos calvos.

Estava distante, ainda, este mundo de hoje, em que a contemplação da fauna humana do sexo masculino me leva a pensar se os carecas não estariam em via de se tornar majoritários - perspectiva ante a qual, aliás, os fabricantes de pentes e xampus deveriam pôr as barbas de molho. Meu ímpeto de repórter, decidido a refazer por dentro uma cabeça um tanto convencional, não foi, porém, ao extremo de fazê-la também por fora, submetendo-a à máquina zero.

Provido de cabelos fartos e ainda predominantemente escuros, impressionou-me o destemor com que machos em busca de reflorestamento capilar entregavam o coco a especialistas no plantio de fios de plástico. Sim, de plástico. Cabelos em pé, cheguei a presenciar um desses procedimentos em consultório. A impressão que tive, ao ver o resultado, foi de que seria temerário acender um cigarro nas imediações de portadores de cabeleiras de nylon.

Menos radicais, outros pediam ao doutor que transplantasse para o alto da testa moitas pilosas colhidas na nuca. Para o alto da testa ou, acredite, para o peito varonil desguarnecido. Não se podia supor que anos depois a moda agora vicejante da depilação masculina tornaria desnecessário esse tipo de semeadura - a qual, contou-me um médico, implica o inconveniente de que os pelos, provenientes de território diverso, mantêm o costume de crescer, forçando, imagino, visitas periódicas ao barbeiro para "fazer o peito".

Certo de haver feito barba e cabelo no que se refere à calvície, em seguida cismei de esmiuçar as agruras da vida de anão. A ideia era saber como se passam as coisas para os seres cujo crescimento físico não foi para a frente, ou melhor, para o alto. Na apoteose mental de quem acabasse de ter brilhante sacada, imaginei-me a circular numa cadeira de rodas por entre a multidão no Centro de São Paulo, o que me permitiria conhecer o literal ponto de vista de um anão. A bem de todos, a pauta não foi adiante.

Frustradas ou não, daquelas experiências ficou em mim alguma inveja de Yannick Blanc, colega francês que, na contramão do próprio sobrenome, esteve por meses convertido em imigrante negro - metamorfose que exigiu longa e penosa preparação, pois tinha a pele alva, os cabelos louros e os olhos azuis de um legítimo gaulês.

Bem antes do alemão Günter Wallraff, que viveria aventura semelhante, relatada no best seller Cabeça de Turco, Yannick Blanc passou por extenuantes sessões de bronzeamento, complementadas com a reiterada aplicação de tintura pelo corpo inteiro. Incontáveis visitas ao cabeleireiro acabaram por dotá-lo de uma convincente carapinha, ao mesmo tempo em que o oftalmologista trabalhava numa prótese em cujo centro luziam pupilas negras de africano. Assim disfarçado, o jornalista se instalou numa cidadezinha e conseguiu emprego numa fábrica - experiência que haveria de contar em reportagem publicada numa revista hoje extinta, a Actuel.

Ninguém desconfiou de nada - até aquela noite em que ele resolveu relaxar numa casa de prostituição. Custou a conseguir quem topasse se deitar com um negro. Reticente, a loura Nicole quis pagamento antecipado. E fez questão de lavar ela mesma a prenda do cliente - a qual, ensaboada, foi desbotando entre seus dedos. "Christiane! Venha ver!" - pôs-se a moça a berrar no corredor, enquanto o repórter, afivelando o cinto, dava por encerrada a apuração.

Não, jamais chegarei aos pés - brancos ou pretos - do Yannick.

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