Realidade se impôs na Bienal de Istambul

Cenário de protestos densificou as contradições do discurso curatorial

Sheila Leirner , Especial para O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2013 | 03h13

ISTAMBUL - Uma exposição excessivamente engajada não poderia sonhar com cenário mais adaptado. Poucos dias antes da inauguração da 13.ª Bienal de Istambul (que foi de 14 setembro a 20 outubro) - evento que se concentrava justamente sobre o poder do espaço público no âmbito da batalha social, artística e política - mais um manifestante contra a supressão dos espaços verdes foi morto no sul da Turquia. A cada noite, a chegada dos colecionadores, críticos e jornalistas era pontuada pelo gás lacrimogêneo e cacetadas nos tumultos entre a polícia escudada e os manifestantes.

Logo de início, quando o projeto de curadoria foi apresentado, a manifestação colocou-se sob o signo das reestruturações urbanas. De fato, nesta bienal não faltaram temas urbanos e trabalhos que tratam do mercantilismo e das alterações das dinâmicas da cidade que afetam a população de baixa renda e que "desafiam o status quo". Porém, a realidade e a atualidade pareceram mais fortes do que a arte apresentada lá.

Com as primeiras manifestações no parque Gezi, perto da praça Taksim, que o primeiro ministro turco quer transformar em centro comercial, a Bienal de Istambul revestiu-se dos muros que ela mesma queria combater e teve de se conter em cinco "redutos". Esses incidentes densificaram, de certa forma, as contradições de um discutível discurso curatorial. A ira pode ser encontrada igualmente nos espaços expositivos.

Em geral, a tristeza ambiente era flagrante. A "cumulação" descosida que se viu em Veneza continuava aqui em algumas obras, mas era mais escrita, sistematizada e esquematizada. Eram esquemas e mais esquemas para se digerir - mapas, planos, organigramas, colagens - por meio de narrativas infindáveis. Não raro, era preciso muito tempo para acompanhar e/ou decriptar o raciocínio de apenas um trabalho. Muitas vezes, o final era frustrante.

A maior parte, quando não era formada por "projetos", dedicava-se a um entretenimento um pouco adolescente. Workshops abundavam. Canteiros de demolição, grafites, geografias imaginárias, árvores, estacionamentos, trânsito urbano, destruição urbana, banditismo, violência, solidão, exílio, minorias étnicas, discriminações sociais e sexuais. Rap e dança lembravam a luta por um bairro de onde os ciganos foram banidos... Não havia nada que seja "politicamente incorreto". Neste lugar, a arte não é livre.

Aproximativamente, 50% da bienal era composto por vídeos. 30%, talvez, pelos esquemas, e 20% apenas parecia dedicado às instalações e ao resto. Muitas vezes, tinha-se a impressão de estar visitando uma exposição de trabalhos de estudantes de escolas de arte. Outras vezes, os artistas cotejavam o jornalismo. Mas isso se deve talvez à escolha de artistas provenientes de países excêntricos e não necessariamente de estrelas do circuito internacional.

Não há dúvida de que é sempre mais interessante quando nomes como Thomas Hirschhorn, Tadashi Kawamata, Gordon Matta-Clark ou Jimmie Durham convivem com talentosos conhecidos e desconhecidos.

Mas nem tudo era desolação, felizmente. Havia alguma beleza também. E algum humor. Raros. Na escola, por exemplo, o tema, evidentemente, era o ensino e algumas obras eram deliciosas. Certos vídeos e instalações eram esteticamente tão belos e formalistas que chegávamos a nos perguntar se não seriam uma "licença" ou um "hiato de prazer" que a curadora desta bienal culpabilizante e desprazível nos concederia para melhor "fruirmos" o caos e a tragédia.

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