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Realidade no espelho

Juliana Reis se inspirou em histórias reais para fazer o premiado Disparos

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h23

Quantas vezes já ouviu que quem conta aumenta um ponto? A diretora Juliana Reis tem uma versão um pouco diferente. Há quatro anos, ela ficou muito impressionada com o relato de um amigo, vítima da violência no Rio - mas que, no fundo, poderia ser a violência urbana de qualquer grande cidade do País. Ela recontava a história - e jura que não aumentava ponto nenhum. O que a surpreendia é que as pessoas tinham sempre uma história parecida para contar. Da soma dessas histórias, Juliana escreveu um roteiro que virou filme, premiado no Festival do Rio.

Disparos estreia hoje, um período excepcionalmente curto, se você considerar que o vencedor do mesmo festival em 2011 - o admirável A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Vinicius Coimbra - ainda não tem data de lançamento. Pergunte a nove entre dez diretores brasileiros, talvez aos dez. Eles vão dizer que dinheiro para fazer cinema no País é sempre complicado, mas pior ainda é furar o bloqueio da distribuição e da exibição. Juliana teve a sorte de encontrar uma equipe - de atores e técnicos - que se comprometeu com ela, e seu projeto, a ponto de começar a fazer Disparos antes mesmo que os recursos começassem a ser liberados. Distribuição e exibição também queimaram etapas - o melhor filme brasileiro do ano, avalizado em importantes eventos de cinema no Brasil e no exterior, estreia na primeira semana de janeiro. O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, também estará chegando logo ao mercado.

São filmes autorais, que não têm necessariamente, ou nem um pouco o perfil das produções que são apostas de público. Disparos é sobre um fotógrafo que é assaltado por dois caras numa moto. Mais um pouco e ele assiste ao atropelamento dos assaltantes. Volta para recuperar o material roubado, omitindo socorro às vítimas, e por isso passa a culpado e a réu, sendo levado à delegacia. Estabelece-se um jogo de poder, de dominação e submissão, entre o policial Caco Ciocler e a vítima, que não é mais vítima, Gustavo Machado. Como diz Ciocler, "um lesado que não presta queixa e recupera o produto roubado, deixa de ser vítima".

Juliana Reis assina seu primeiro longa. Pode ser utopia, mas ela acha que Disparos representa uma nova perspectiva e tendência do cinema nacional. "Um cinema ancorado no nosso tempo e espaço, no qual o público se enxerga e que pode servir como instrumento de uma transformação - do espectador." Foi com esse discurso, e essa convicção, que ela conseguiu cooptar gente talentosa para o projeto. Os prêmios - Redentores de fotografia, montagem e ator coadjuvante (para Caco Ciocler) - somente vieram confirmar a acolhida favorável que Disparos teve no Rio.

Pode ser que ajude a chamar público o fato de Caco Ciocler estar na novela das 8 - Salve Jorge, de Glória Perez - que substitui o fenômeno Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro. Ele sabe que Salve Jorge ainda não emplacou de audiência nem de crítica. Diz que a Globo está sendo paciente, até porque Glória Perez sempre termina por cativar a massa e a própria Avenida Brasil não começou com altíssimo ibope (embora de cara tenha adquirido prestígio). O papel é atraente - "Não é o policial violento ou corrupto que você está acostumado a ver na maior das produções, com exceção do Capitão Nascimento (de 'Tropa de Elite'). Ele tem mais uma cara de classe média, o que é interessante", avalia o ator.

Gustavo Machado é o primeiro a reconhecer que é um ator cult. "Faço filmes autorais, de prestígio, o que foi sempre uma opção, mas confesso que isso, além de não fazer de mim o ator mais conhecido também não reverte em dinheiro no bolso." Ele não pretende mudar suas escolhas, mas espera não viver sempre nessa semimarginalidade. "Estabilidade e seguro-saúde são coisas de que todo mundo precisa", diz.

No Rio, a diretora fugiu, no debate, à constatação de que há uma tensão (homo)erótica no jogo de poder entre os personagens. Agora, ela já admite que sim. Ciocler e Machado concordam. "Não foi algo que a gente tenha buscado, e talvez, se buscássemos, tivesse ficado excessivo, caricatural. Mas sem dúvida que há um jogo ali. O filme fica mais complexo."

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