JF DIORIO/ ESTADÃO
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Realidade árida impulsiona saídas criativas na moda

Desfiles performáticos e coleções autorais animam o último dia da São Paulo Fashion Week

Maria Rita Alonso e Sergio Amaral, Especial para O Estado de S. Paulo

27 Abril 2018 | 11h48

A moda de Ronaldo Fraga nunca é só sobre a roupa. O estilista transforma seus desfiles em manifestos, partindo de assuntos políticos e sociais para apresentar um trabalho cheio de significado. Ontem, no último dia da São Paulo Fashion Week, ele jogou luz à maior tragédia ambiental da história do Brasil: o rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais. 

O desfile foi dramático, comovente, levando fashionistas mais sensíveis às lágrimas. A carga emocional começou com uma performance da jornalista-atriz Marília Gabriela, na lama cenográfica, encenando um renascimento pós-inundação. Então, vieram modelos vestidas com peças tingidas de marrom por um processo conhecido como deep-dye, seguidas por um jardim imaginário, que brotou em bordados de estampas botânicas. Tudo confeccionado em puro linho. “São roupas delicadas, chiques, desejáveis! Ronaldo partiu de um tema duro para fazer a gente sonhar”, diz Camila Garcia, redatora-chefe da Vogue.

Com uma mensagem de reconstrução e resistência, o estilista uniu-se a bordadeiras da região de Barra Longa, devastada pelo acidente, para desenvolver as peças da coleção. Folhas secas foram transformadas em joias com nomes de plantas sugestivos (chifre-de-veado, maria-sem-vergonha, comigo-ninguém-pode, dama-da-noite) bordados em linhas coloridas. 

Nos vestidos longos, primorosos recortes e vazados desenhavam folhas e suas nervuras. Alguns traziam lindas estampas com retratos de família “sujos” de lama. “Não queria reforçar a tristeza. Queria que fosse um alento.”

No início do dia, Gloria Coelho também usou de dramaticidade para apresentar sua coleção no Teatro Faap. Em ótimo momento, a estilista trouxe peças minimalistas inspiradas e cheias de frescor. O tênis de cano alto e sola baixa era uma graça e a alfaiataria, chiquérrima, com blazers ora desconstruídos em assimetrias, ora acinturados por elásticos. A presença de meninos na passarela causou uma surpresa boa, exibindo parkas soltas e calças retas, que funcionam para ambos os sexos. “Um estilo meio Truffaut, meio Godard dos anos 1960”, descreveu Sylvain Justum, editor de moda da revista GQ.

Em meio a uma realidade árida, com crise econômica persistente castigando o varejo, a criatividade parece florescer nas grifes grandes e nas jovens.

Caso da Amapô, que fez a mais irreverente e jovial apresentação da semana. No salão de festas onde foi rodado o filme Chega de Saudade, promoveu uma mistura livre, leve e solta de referências, como skate, divindades indianas, baile de formatura anos 1980 e o colorido alucinante do coletivo Avaf, de artes plásticas. Sem medo de excessos, a coleção aposta em modelagens geométricas, materiais reluzentes, como lamês e glitter, muitos babados e volumes, além de jeans com motivos de teclado, guitarra e violão (alguns tridimensionais).

O perfume oitentista e new wave apareceu de novo na Ratier, que olha para a onda electro dos anos 2000 e as raves, um território que Renato Ratier domina. O prefeito Bruno Covas, conhecido do estilista, estava na primeira fila. “A moda gera empregos e atrai investimentos. Os desfiles são tão importantes quanto a Parada Gay e a Marcha Para Jesus”, afirmou Covas, pouco antes de ver os looks em preto e branco acesos por cores néon (rosa, amarelo).

A estreia da Handred foi outro ponto alto. A coleção de André Namitala veio envolta em atmosfera étnica, inspirada em Marrocos. O linho, material fetiche da marca, agora divide os holofotes com seda opaca e veludos, em looks leves e muito elegantes.

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