Razões para ler um clássico nacional

ANA MARIA MACHADO

ANA MARIA MACHADO É PRESIDENTE DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, AUTORA DE VASTA OBRA INFANTOJUVENIL, DE INFÂMIA (ALFAGUARA), ENTRE OUTROS ROMANCES PARA ADULTOS , O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2012 | 03h12

Quando, em 2004, fui dar um curso na Universidade de Oxford e escolhi Jorge Amado como tema, nem imaginava onde me metia. Reler toda a obra dele foi só um primeiro passo. Depois, as leituras sobre ela. As anotações sobre o que ia lendo. A revisão do material audiovisual. E os encontros em salas de aula com os alunos, com debates vivos e entusiasmados.

Nesse momento, comecei a ficar impressionada. Que mistério era aquele? Como um autor podia parecer ter saído de moda tão completamente mas, logo nas primeiras releituras dos jovens, se revelava tão cheio de vida e tão atual? Afinal, as obras de referência consagradas, quando não o descartavam sumariamente, só se referiam a ele num mar de restrições, entremeadas por um ou outro comentário condescendente.

Decidida a ir mais fundo na análise desse fenômeno, acabei escrevendo um livro, que se chamou Romântico, Sedutor e Anarquista: Como e Por Que Ler Jorge Amado Hoje.

Ao abordar a questão, vi que as razões para isso eram quase sempre extraliterárias. Antes de mais nada, ideológicas (por ter entrado para o Partido Comunista, ou por ter saído dele, de acordo com a ideologia do freguês). Em seguida, o nariz torcido dos puristas gramaticais em relação a seu falar brasileiro e popular. Depois, um certo moralismo diante da sensualidade transbordante. Preconceitos envolvendo a Bahia. A acusação de usar clichês e estereótipos - muitas vezes sem que se percebesse que foi ele quem descobriu esses arquétipos ou inventou tais recursos, o que faz deles protótipos. Os rótulos de machista e racista, por suas mulatas sedutoras. E mais a cobrança de um tipo de construção narrativa sofisticada e complexa que não fazia parte do jeito de Jorge Amado contar uma história, de seu pacto implícito com o leitor - embora não esteja ausente de obras como Quincas Berro D'Água ou Tenda dos Milagres.

No ano passado, quando a Academia Brasileira de Letras constituiu uma comissão para pensar na comemoração do centenário de Jorge Amado, ficou claro: queríamos que ele fosse lido e relido. Incentivamos escolas e universidades a um mergulho no seu texto. Inclusive no exterior - em Paris, Londres, Madri. Haverá outros seminários em Salamanca, Lisboa, Coimbra, Roma. No Brasil, em colégios e bibliotecas comunitárias, jovens começaram a ler Jorge.

É emocionante constatar: cada geração se apropria dessa obra de uma forma nova. Já foi um modelo de luta, uma ponte para leituras eróticas, um mergulho no humor e na imaginação. Hoje é redescoberta como uma denúncia profética sobre a infância abandonada, um brado pela ação ecológica, uma aposta na independência feminina ou um anunciador do sincretismo cultural brasileiro. Quanto mais pensamos conhecê-la, mais ela surpreende. Mantém sua riqueza na releitura e oferece riquezas novas na descoberta.

É a consagração de Amado como um clássico: está sempre se renovando. Por isso, permanece.

Você já leu Jorge Amado, nego? Não? Então leia.

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