Razões inversas da tragédia e da comédia

A distância no tempo e os caminhos das artes cênicas brasileiras deixaram a obra de Pierre Corneille (1606- 1684) numa aura de monumentalidade restrita à citação erudita.

O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h07

Em princípio, deveria ser atraente aos palcos nacionais a presença de, pelo menos, El Cid, sua obra-prima sobre o indômito guerreiro em confronto com o poder absoluto. Não é o que acontece. Salvo engano, a representação anterior da peça no Brasil ocorreu em 1967, no Teatro Municipal, em excursão da Comédie Française - alunos da Escola de Arte Dramática (EAD) fizeram a figuração.

Fiel ao seu provocante nome, a Cia Razões Inversas, nascida no âmbito das artes cênicas da Universidade de Campinas (Unicamp), chega aos 21 anos sob a inspiração do encenador Márcio Aurélio e enfrenta com altivez o desafio de representar o autor que une grandeza de temas à engenhosidade de ideias plenas daquela habilidade verbal do advogado que ele também foi.

O grupo, que tem consistência artística e cultural, sempre demonstrou curiosidade por textos menos evidentes, preciosidades em semiesquecimento, caso, por exemplo, de Senhorita Else, de Arthur Schnitzler.

Na vivência de duas décadas, e hoje com vários dos seus integrantes originais em outras companhias, Razões Inversas realiza o sonho de Márcio Aurélio de encenar A Ilusão Cômica, texto de um Corneille menos conhecido.

A peça oferece peripécias romanescas, intrigas por ascensão social entre lances de magia, e a chama constante de exigência moral. Corneille cria uma metáfora sobre o seu tempo (lutas contra o absolutismo, a firmação da burguesia, novas ideias sobre o Homem em sociedade). Traz igualmente ao público a comédia compassiva, novidade em um autor célebre como trágico.

O seu fanfarrão Matamouros, que atravessa o enredo, é um primor de figura travessa, divertida e, no fundo, frágil e solitária. Lance de brandura no duro retrato dos interesses de classe.

Por fim, essa é das peças inaugurais do teatro dentro do teatro na dramaturgia ocidental (não se havia inventado ainda o termo "metalinguagem"). Corneille se vale de um truque e/ou ilusão, algo não lógico, para resolver o dilema do pai que procura se reconciliar com o filho e instaurar a poesia. No caso, um enigmático Alcandro desfaz os perigos, mortes e ameaças com um subterfúgio que não se pode contar aqui. Clarão mágico traz a peça imediatamente para o presente. Tudo passa ser agora.

Cuidadoso com os intérpretes e iluminador requintado, Márcio Aurélio tem, desta vez, um elenco com certo desequilíbrio de experiência ou adequação ao papel, embora seja evidente o empenho e a coesão da equipe, o que é valorizado pelos desempenhos, de Joca Andreazza, admirável no jogo corporal e de voz, e Lavínia Pannunzio ostentando olhares e subtextos interpretativos exatos, sempre com imponência. Julio Machado define e impõe força a duas intervenções importantes no entrecho.

Foram - ou são/ continuam - 21 anos no caminho de Márcio Aurélio, artista e pedagogo exemplar, e do grupo que começou com ele. Juntos, esses artistas ilustram a ilusão e a certeza de suas "razões inversas". Porque, sim, há muitas razões, e o seu contrário, atrás das máscaras da tragédia e da comédia.

Crítica: Jefferson Del Rios

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