Razão e sensibilidade

Moda com personalidade, é esta a marca do belga Dries Van Noten, que em março mostrou em coleção que entende os desejos das mulheres

Eva Joory, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2010 | 00h00

Aos 52 anos Dries Van Noten é um dos nomes mais cultuados da moda belga. Nascido em uma família de alfaiates, ele invadiu ainda criança o mágico universo da costura.

O avô transformava roupas de segunda mão em peças usáveis de prêt-à-porter. O pai era proprietário de uma butique que vendia grifes como Emanuel Ungaro, Salvatore Ferragamo e Ermenegildo Zegna. A mãe, além de dona de uma franquia de roupas, tinha paixão por linho e rendas, cujas peças ela colecionava.

Dries Van Noten não é adepto do estilo superstar que muitos estilistas adotam e adoram. Sua postura é low profile e sua moda, um mix de cores, estampas e influências trazidas de várias partes do mundo.

Assim como suas roupas repletas de referências étnicas, Van Noten é um homem do mundo. Sua personalidade foi moldada na escola jesuíta que frequentou quando criança. Lá, adquiriu o jeito prático de olhar para a vida e a força moral.

Por decisão do pai, passou grande parte da sua adolescência acompanhando a família nas viagens de negócios. Foi o começo do seu aprendizado.

Quando resolveu estudar na conceituada escola de moda da Antuérpia, a Antwerp"s Royal Academy, Van Noten sabia que não queria apenas confeccionar roupas. Ao contrário, a intenção era imprimir nas suas criações mais que um simples conceito. Optou por uma moda com personalidade, longe dos modismos e das tendências de uma temporada só.

O surgimento do estilista trouxe um sopro de vigor e de juventude ao universo fashion na década de 1990. A turma da qual fez parte foi rotulada de geração cerebral e incluía, além dos Seis da Antuérpia, como ficaram conhecidos os estilistas belgas naquela ocasião, nomes como o de Martin Margiela (também belga), Helmut Lang e Jil Sander.

Longe de ter estilos parecidos, o que os jovens criadores tinham em comum era um olhar mais real para a moda e para o ato de se vestir. A opção era celebrar o minimalismo, corrente que se opôs à opulência da moda dos anos 1980.

Hoje, mais de duas décadas depois da sua estreia profissional, o desejo de Van Noten continua o de vestir uma mulher real que trabalha e que se diverte como qualquer pessoa e que busca um mix de leveza, conforto e elegância: "A moda ficou séria demais. Quero mostrar que podemos brincar com as roupas e ser elegantes ao mesmo tempo", declarou em Paris durante a temporada de prêt-à-porter.

Seu último desfile em março foi um dos mais memoráveis da carreira. Mostrou como ninguém que entende dos desejos das mulheres. Em entrevista exclusiva ao Estado, Van Noten disse que, apesar do rótulo de cerebral, cria com o coração: "Meu approach com a criação é instintivo. Deixo o lado mais cabeça para negócios e números."

O que o levou para a moda? Que paixão sente ao criar?

Minha carreira aconteceu muito naturalmente, um pouco por osmose. Tive uma família muito amorosa que me apoiou e me encorajou a encontrar minha própria voz muito cedo. Juntos, fizemos uma imersão na moda viajando com toda a família para Milão e Paris, quando meus pais iam às compras para suas coleções. Essa foi a faísca que acendeu meu amor por moda e pelo ato de se vestir. Naquela época, eu sabia que tinha nascido para a criação e não para as vendas, porque já havia em mim esse amor incondicional pelos tecidos. É o que move meu processo criativo hoje.

Qual foi a ideia da sua última coleção (inverno 2010)? Tudo era tão feminino, colorido e suave.

Quis misturar a delicadeza daquele rigor que havia nos anos 1950 com a liberdade e a subversão mais crua e dura dos anos 1970. Esta última coleção conta uma história de contrastes em termos de volumes, sensibilidade, aparência, preciosidade e até mesmo de conformismo. Os valores são aqueles da alfaiataria masculina misturados à sensibilidade do artesanato e do corte da alta-costura.

O que mudou na moda desde a aparição do grupo belga, nos anos 90? Que mudanças o senhor trouxe?

A moda belga sempre foi sobre experimentação, com pontos de vista pessoais e artísticos, baseados em referências históricas e geográficas. Houve uma grande evolução quando o grupo belga entrou em cena. E isso ainda é relevante nos dias de hoje. Todos nós expressamos nossa criatividade de uma maneira individual. O que funciona no meu trabalho é que eu sempre usei elementos de todas as partes do mundo. A diferença está no modo de criar, que é muito pessoal e mesmo local.

O que o fez se transformar em uma referência na moda?

Sou grato a tudo o que acontece na minha vida, mas meu foco é manter a chama da paixão pelo meu trabalho no futuro. Nunca me senti uma referência mas um estilista com um ponto de vista bastante pessoal. Essa é a minha força. Eu luto para manter uma autenticidade de expressão em minhas coleções.

Falam que sua moda é um mix entre um caminho poético e um estilo mais cerebral. Como consegue essa união?

A minha filosofia está mais para coração e mãos do que cabeça. O meu approach com a criação é mais instintivo do que cerebral ou até mesmo estratégico. Não consigo ser assim.

O que o inspira a criar?

Tudo e qualquer coisa. Encontro inspiração na leitura, olhando fotografias, indo a exposições e ouvindo música. Eu não tenho mais tempo para viagens. Para mim, nada é muito original e nada é muito banal. Mas a inspiração de toda coleção começa pelos tecidos.

A sua habilidade está em misturar e escolher tecidos, estampas, texturas, cores, além de uma pitada de referências étnicas. Explique um pouco a origem dessa sua paixão e como faz uso de todos esse elementos.

Em meu trabalho, sempre usei elementos de todas as partes do mundo, desde as primeiras coleções. Sou apaixonado por outras culturas e tradições, por todos os tipos de tecidos e materiais. Estampas e texturas são essenciais para mim. A construção de uma roupa no meu caso é sempre extremamente simples, mas ao mesmo tempo com complexidades subliminais, como é o caso dos tecidos e das estampas da marca, que têm sempre muitos detalhes e inúmeros bordados feitos à mão.

Com a atual crise econômica, a competição global e as lojas de fast fashion, como a moda ainda pode criar desejo?

Cara ou barata, simples ou detalhista e elaborada, o desejo na moda ou em qualquer arte é sempre impulsionado pela emoção.

O que as mulheres querem hoje da moda e na moda? É fácil detectar os desejos e as necessidades ou eles estão sempre mudando? De que maneira o senhor acompanha essas reviravoltas?

O que as mulheres querem é tocar, alcançar os seus sonhos. Roupas de alta qualidade, uma moda fácil de se usar e principalmente saber misturar todas essas informações. É isso que importa. Tento criar roupas que durem sem nunca precisar dizer "esqueçam o que eu mostrei na temporada passada, vou fazer algo totalmente diferente" a cada desfile. Sempre haverá continuidade nas minhas coleções para que as pessoas possam usar as minhas criações por um bom tempo ainda. Aquela qualidade que é "eterna" ao estilo e ao bom gosto sempre foi e será uma paixão para mim.

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