Razão e sensibilidade de GOERNER em ode a Chopin

"Ó, minha pátria!", exclamou Chopin quando Adolf Gutman, um de seus raros alunos, tocava o terceiro dos Estudos opus 10, um dos mais conhecidos desta coletânea de peças curtas que expõe a técnica e a sintaxe do vocabulário do piano romântico e ao mesmo tempo embute miniaturas tão populares quanto o estudo final, apelidado "revolucionário". Ele tinha 20 anos quando começou a escrevê-los, e parece plausível a hipótese do musicólogo húngaro Lajos Hernadi de que os estudos nasceram como exercícios preparatórios para o próprio Chopin superar as dificuldades técnicas de seus dois concertos para piano.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 00h00

O pianista argentino Nelson Goerner fez deste ciclo o núcleo central de seu excepcional recital ontem na Sala São Paulo, promovido pela Sociedade de Cultura Artística. Mostrou virtuosismo e sensibilidade em doses exatas. Sim, porque se de um lado eles são cápsulas para solução de problemas de técnica pianística, de outro concentram o melhor de Chopin, em termos de criação. Afinal, com estas 12 peças curtas ele inventava o seu futuro e o do piano. Dedicou-os a ninguém menos do que ao amigo e virtuose Liszt.

Em noite iluminada, Goerner acertou também na construção do repertório da primeira parte do recital. Atmosferas crepusculares cercam as obras do último período do compositor, sobretudo nos seus derradeiros oito anos de vida. Os pares de polonaises e noturnos escolhidos por este protegido de Martha Argerich são particularmente inovadores. São suas últimas incursões nos dois gêneros ? e por isso mesmo os explode formalmente, mas com certa delicadeza.

Chopin queria colocar "fantasia" no título da Polonaise opus 44, de 1841, mas recuou pouco antes da publicação. Poema heroico grandioso, em que uma inesperada mazurca se intromete, substituindo o habitual trio, com uma melodia doce, nostálgica, segundo a expressão usada por Liszt ao comentá-la. A Polonaise opus 61, de 1846, agrega a expressão "fantasia". E é isso mesmo, porque foge ainda mais da estrutura tripartite das polonaises convencionais, com suas audácias harmônicas e formais e a recusa ao estilo "militar". Goerner acertou no tom de abordagem destas peças que exigem um virtuosismo arrebatador mas não se esgotam na superfície rasa da dança.

Par de gemas. Os dois noturnos podem não ter entusiasmado boa parte do público, mas com certeza constituíram pontos altos do recital. Como estão distantes dos primeiros noturnos, que soam superficiais contrapostos a este par de gemas pianísticas em que Chopin consegue o milagre de interiorizar ao máximo o sentimento romântico, afastando-se da sentimentalidade barata com que os pianistas medíocres quase sempre massacram nossos ouvidos. Neles quase não há virtuosidade, tudo é sóbrio, contemplativo. O contraponto sobressai. Afinal, a paixão por Bach e o Cravo Bem Temperado, obra que Chopin sempre trazia consigo na década final de vida, tornou-se avassaladora naquele período. Ainda hoje, estas peças impactam admiravelmente quando bem tocadas. Como Goerner o fez.

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