Raul Cortez fala da infância em entrevista recente

Há menos de um ano, Raul Cortez estava cheio de planos e confiante em ter debelado o câncer que o levou à morte na noite de terça-feira, aos 74 anos, no Hospital Sírio Libanês, onde estava internado desde o dia 30 de junho. Feliz e com muitos projetos em mente, ele recebia finalmente a imprensa e falava de sua carreira. Uma dessas entrevistas saiu na edição de setembro do ano passado da revista Espresso, publicação trimestral da Café Editora.Leia a íntegra da entrevista:Talvez o menino que sonhava em ser Flash Gordon, herói das histórias em quadrinhos da década de 30, jamais imaginasse o grande talento que tinha. Quando espalhava as figurinhas de gibi pelos castelos de tijolos que fazia no fundo do quintal de sua casa, o pequeno Raul experimentava, pela primeira vez, uma sensação que o acompanharia a vida toda: o prazer de representar. O pequeno cresceu, mas o homem nunca deixou de ser criança. E ainda sonha em ser Flash Gordon. É com esse ar de menino e jeito de homem vivido que Raul Cortez abre as portas de sua casa para uma entrevista que acaba tornando-se um descontraído bate-papo. Veste uma calça e um casaco de moletom, bem à vontade, e gentilmente nos chama para sentar ao sofá. A sala, toda envidraçada, com vista para o jardim, é cheia de esculturas, quadros e fotos do ator e familiares. Orgulhoso, mostra retratos das filhas, Lígia e Maria, e alguns dos troféus - são muitos - que ganhou ao longo da carreira. Ele expressou seu talento na televisão, no cinema e no teatro, mas este último é, sem dúvida, a sua grande paixão. Relembra, com saudade, das peças que fazia nos anos 60, época do Regime Militar, quando mais se realizou como ator. "Por tudo o que estava acontecendo no país naquele momento, atuar era muito importante, muito bonito", diz. Pequenos Burgueses (1963) foi uma das peças que mais marcou sua vida. "Esse trabalho significou muito porque foi com o Zé Celso (diretor) que aprendi a força do teatro no ato de transformação do público". A peça Rei Lear (2000) também é uma de suas preferidas. "Foi um espetáculo muito bonito e acredito que uma das minhas melhores atuações. O ambiente de trabalho era excelente, nunca houve o menor problema entre ninguém lá dentro e, ao todo, estavam envolvidas umas 40 pessoas". Palcos da infância Raul descobriu cedo sua vocação. Foi na infância que atuou em suas primeiras peças, quase sempre no quintal de sua casa, em Santo Amaro. E quando não se refugiava para representar com parceiros imaginários, cantava e dançava no meio da rua com Maria Regina, sua irmã e companheira de todas as maluquices de menino. "Sempre nos empolgávamos com Modelos (filme que consagrou Rita Hayworth e Gene Kelly). Saíamos do cinema imitando todos os passos! E acreditávamos que dançávamos divinamente", conta, soltando uma gostosa gargalhada. Em meio às quermesses, cavalgadas, boiadas - que passavam pela rua e obrigavam as pessoas a saírem correndo para dentro de suas casas - matracas, Verônicas da procissão e filas para comprar pão, Raul, quando criança, viveu uma época cheia de cores, sonhos, danças e sabores. "Tive uma infância muito rica, típica de uma cidade de interior. Tenho lembranças incríveis", relembra. Lembranças que, sem dúvida, contribuíram muito para sua formação profissional. "Sinto, até hoje, uma enorme necessidade de preservar esse lado puro meu. Eu adoro ser criança! Talvez seja um defeito, mas é isso que me alimenta como ator. Quando você representa, está brincando, jogando. Como é que pode fazer isso se não tiver uma criança dentro de você?". Apesar de sua evidente vocação para ser ator, os pais não o incentivavam. A mãe tinha uma aquiescência muda e o pai claramente queria que, o mais velho de seus seis filhos, o sucedesse no escritório de advocacia. Ele acabou seguindo o conselho paterno e foi estudar Direito, mas as leis não o inspiravam tal como os palcos. E como viver sem a excitação provocada por novos desafios? Eis que Raul foi aprovado na seleção do Teatro Brasileiro de Comédia. Adeus futuro advogado. Em Eurídice (1956), soltou-se das amarras da sociedade para mergulhar de cabeça no mundo que, no fundo, sempre procurou.Consolidação da carreira Algum tempo após sua estréia no Teatro Brasileiro de Comédia, já integrava a Companhia Cacilda Becker. Foi quando conheceu sua primeira mulher, Célia Helena, mãe da primogênita Lígia. A carreira começou a deslanchar. Recebeu o Prêmio de melhor ator coadjuvante com a peça Yerma (1962) e ganhou seu primeiro Molière pela atuação em Rapazes da Banda (1970). Foi justamente na década de 70 que chegou ao ápice de sua carreira teatral: recebeu quatro prêmios Molière e consolidou-se como um dos grandes nomes dos palcos nacionais, na mesma época em que nasceu Maria, sua filha com a socialite Tânia Caldas.Nem todos os seus trabalhos fizeram sucesso. Mas o ator não se incomoda nem um pouco com isso, pelo contrário. "É gostoso ter um currículo que apresenta coisas engraçadas no meio, né? Eu acho ótimo". E Raul segue contando histórias hilárias, naturalmente interpretando, com seus famosos olhares e expressões, todos os personagens. Recorda o fracasso da peça Julius César (1966), dirigida por Antunes Filho. "Foi a maior catástrofe que eu já presenciei em teatro durante toda a minha carreira!". Raul apareceu em público com a peruca torta, Sady Cabral teve que ficar com as nádegas à vista e havia uma intensa disputa entre os atores pelo centro das atenções. Todo esse contexto gerou uma peça bem atrapalhada e, anos mais tardes, boas risadas. É impossível falar dos grandes nomes da TV brasileira sem citar Raul Cortez. E não é à toa que sua imagem está associada a um imigrante italiano: ele assumiu esse papel em O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999) e Esperança (2002), todas de Benedito Rui Barbosa. Sua preferida é a primeira. Como o rico fazendeiro Jeremias Berdinazzi, conquistou cinco importantes prêmios. "Essa novela foi extraordinária", diz o ator, que se identifica muito com a cultura italiana, apesar da ascendência espanhola. Raul, apaixonado por cinema, cita Caso dos Irmãos Naves (1967), Vereda da Salvação (1964) e Lavoura Arcaica (2001) como importantes trabalhos. Seu último filme, O Outro Lado da Rua (2004), que marcou a primeira atuação do ator com Fernanda Montenegro no cinema, teve direção do estreante Marcos Bernstein. "Eu me dei muito bem com o Marcos. Além de ser mais aberto para o diálogo, ele tem uma coisa gostosa de quem está começando, a audácia, a ansiedade". Atualidades No ano passado, Raul produziu as peças Fica Frio - Uma Road Peça e À Meia Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça, do dramaturgo Mário Bortolotto. A experiência não foi das melhores. "O Bortolotto é fantástico, mas tem uma linguagem muito própria. Não foi um casamento feliz", revela. Mesmo assim, o ator pretende levar adiante a produção de uma trilogia teatral que começou com Ah!Mérica (1985), seguida por Garcia e Lorca (1999). "A terceira peça tem que ser uma nova forma de expressão. Ainda não sei como, mas vou descobrir", diz ele, que não pensa em parar tão cedo com novos projetos. Sonha em montar um Centro Cultural com curso de interpretação para jovens atores. "Quero oferecer uma oportunidade para os jovens que decidam seguir essa profissão. Hoje, eu pensaria duas vezes antes de ser ator, porque a concorrência é muito desleal. Você tem que ter estômago para ouvir besteiras dos televisivos e ver meninas de bunda de fora na Playboy dizendo que são atrizes", desabafa. "Além disso, sempre dei opiniões polêmicas, mas os jornalistas nunca publicam e isso é muito desagradável. Eu pergunto, como a gente pode falar em livre expressão? Só consigo falar o que eu penso quando é ao vivo na televisão", completa ele.Recentemente curado de um câncer no intestino (sic), Raul revela que não se permitiu ficar deprimido. "Ora, minha biografia, eu que estou escrevendo!". Bem-humorado e inteligente é capaz de provocar risos e lágrimas contando os "causos" de sua vida. É um galã (por mais que negue isso), com um ar de mistério que nos instiga a querer saber um pouco mais, ao mesmo tempo em que revela inesperadas particularidades sobre sua trajetória. Raul - nas palavras que ele próprio utiliza com freqüência - é absolutamente fantástico.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.