Raul à espera do trem

Sempre lembrados como a década do rock brasileiro, os anos 80 não foram muitos felizes para aquele que é considerado o pai da criança. Enquanto seus filhos renegados dominavam paradas e vendas de discos, o quarentão Raul se esforçava para mostrar o vigor dos velhos tempos. Depois de voos rasantes por três gravadoras, a varejeira vinda da Bahia acabou pousando por mais tempo na sertaneja Copacabana, pela qual lançaria seus dois últimos trabalhos solo, de volta agora numa caixinha da série Bilogia. Aos trancos e barrancos, depois de quase um ano de estúdio, Raul conseguiu concluir Uah-Bap-lu-bap-lah-béin-bum! (1987) e emplacar seu último grande sucesso, Cowboy Fora da Lei. Se não contava mais com o time de feras que sempre o acompanhou nos álbuns anteriores, a companhia da guitarra de Rick Ferreira garantiu a levada country dos primórdios que Raul queria reafirmar em contraponto aos teclados oitentistas, embora uma estranha bateria eletrônica possa ser ouvida. Nas letras, a parceria com Claudio Roberto apostava na ironia e punha de lado o esoterismo, presente só na equivocada versão em inglês da setentista Gita. Na ótima Canceriano sem lar, Raul resumia o seu estado de espírito: "Pergunto a nuvem preta quando o sol vai brilhar/ Estou deitado em minha vida/ E o soro que me induz a lutar..." A nuvem que continuou a ofuscar a luz de Raul pode ser vista no segundo disco, Pedra do Gênesis (1988), onde pouco se salva.

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