Ratton solta seu menino maluquinho

Diretor mineiro revela suas influências e conta como ainda é difícil fazer um filme como 'O Segredo dos Diamantes'

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2014 | 02h08

Helvécio Ratton tem filmes fortes, dramáticos como Batismo de Sangue no currículo, mas volta e meia ele liberta a criança que ainda carrega e faz filmes como O Menino Maluquinho, A Dança dos Bonecos e O Segredo dos Diamantes, que estreia hoje nas salas, meses depois de ganhar (em agosto) o prêmio do público em Gramado. Ratton brinca - "Tenho aqui dentro (do peito) um diretor de 10/12 anos, que assina os filmes comigo." O menino (maluquinho?) está de volta com outra aventura, e com raízes na tradição mineira.

Na trama de O Segredo dos Diamantes, trio (dois garotos e uma garota) procuram o tesouro do título para pagar a cirurgia do pai do protagonista, que sofreu um acidente de carro e está em coma. O tesouro teria sido escondido pelo padre Oliveira, inspirado no inconfidente Oliveira Rolim, que era padre, mas se casou com uma escrava e teve descendência. Isso é História (com maiúscula), mas a grande fonte de Ratton foi Ângelo Dettori, um italiano que ele conheceu em Diamantina, quando preparava A Dança dos Bonecos. "Dei o nome dele ao garoto do filme, como homenagem. Ângelo era um fabulador notável."

Por 30 anos, e seguindo as indicações de mapas encontrados na casa de Cláudio Manuel da Costa, ele buscou uma fortuna em diamantes que teria sido enterrada pelo inconfidente. Era tanto dinheiro que Dettori pretendia pagar a dívida externa brasileira. Nunca encontrou, mas sua busca prossegue agora na ficção. Ratton conta - "Lia muito quando era menino, e aquilo nutriu meu imaginário. Na sala, tinha a literatura oficial, Monteiro Lobato. Na cozinha, a par das leituras, havia a cozinheira que me deixava ouvir as novelas com ela. Foi da cozinha que acompanhei as aventuras de Jerônimo, o herói do sertão."

O tempo passa e Ratton diz que ainda é complicado colocar de pé um filme desses. Para quem fez O Menino Maluquinho, deveria ser mais fácil, mas não é. "Os americanos ocupam metade do circuito exibidor com um filme infantojuvenil (o novo 'Jogos Vorazes') e nós não nos ligamos que esse é o público. Ao mesmo tempo que consome, ele ainda participa de um esforço para formar plateias. Pois é difícil encontrar apoio. É como se o filme infantojuvenil não fosse sério", reflete o diretor.

Para ele, é serio - e muito. "Hollywood investe nos efeitos, nosso filme também tem efeitos, mas eles não estão lá para chamar a atenção, para encher os olhos. Não filmei o acidente no começo. Ele é todo digital. O abismo, as inserções no smartphone, tudo é efeito, mas tudo também é história." Em Gramado, surgiram críticas porque o trio de protagonistas, em busca de pistas, rasga uma página de um livro raro e também porque o companheiro do herói, um garoto negro, seria um estereótipo. Ratton esclarece - "Não existe aventura sem transgressão e rasgar o livro tem esse caráter. É uma ação que é criticada dentro do filme, mas faz avançar a história. É necessária. E o garoto negro... Muita coisa desse chamado estereótipo, o humor, veio do ator que faz o papel, Alberto Gouveia."

Encontrar o elenco foi como procurar diamantes. "Fizemos testes com 600 garotos, até chegarmos a 12 finalistas. Foram diamantes brutos, que lapidamos." Ele se alegra porque Matheus Abreu, que faz Ângelo, foi uma descoberta sua que já chegou à Globo. "Vai fazer Dois Irmãos com Luiz Fernando Carvalho, a quem respeito." Alberto Gouveia, o Carlinhos, também está sendo contratado para novos trabalhos no começo do ano.

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