Alf Ribeiro/Divulgação
Alf Ribeiro/Divulgação

Rasha Salti explica curadoria na Mostra Mundo Árabe

Libanesa aponta raridades como 'Crônica dos Anos de Ira', do argelino Mohammed Lakhdar-Hamina

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

27 de junho de 2012 | 03h12

Ela é jovem, e bela, de uma beleza particular. Rasha Salti é libanesa e lembra um pouco a atriz e diretora Nadine Labaki, de Caramelo. "É muito interessante. Faz um cinema de que gosto. Diria que é mais intuitiva que intelectual, mas Nadine é inteligente." A própria Rasha tem o perfil de uma intelectual e é assim que visita o Brasil pela primeira vez, como curadora da retrospectiva Mapeando a Subjetividade, no quadro da 7.ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. Rasha participa do comitê de seleção do Festival de Toronto. Escolhe os filmes árabes e africanos. Está chegando à data limite da seleção deste ano. Tem dois filmes na mira, precisa definir mais quatro, que espera emplacar na programação.

Em sete anos, o crescimento da Mostra Mundo Árabe de Cinema tem sido grande. A primeira, em 2005, apresentou cinco filmes - na atual, são 32, incluindo os da retrospectiva, apresentada pela primeira vez no MoMA, de Nova York. Rasha já trabalhava com cinema na metrópole norte-americana, tendo dirigido duas edições da bienal de cinema East Film Festival, em 2005 e 2007. Ela apresentou ao MoMA sua proposta de uma grande retrospectiva sobre o cinema árabe. Dividiu a curadoria com Jytte Jensen, do próprio MoMA.

A programação possui raridades, como Crônica dos Anos de Ira, do argelino Mohammed Lakhdar-Hamina, que ganhou a Palma de Ouro, em 1975. "No último ano ocorreu toda essa revolução no mundo árabe, mas a primavera não surgiu do nada. Organizamos uma seleção do que havia de experimental na produção dos anos 1960/70. Foram décadas marcadas por desafios e releituras que produziram um amplo movimento de vanguarda e experimentação na poesia, na literatura e no teatro. Paralelamente, os cineastas iniciaram um movimento que quebrava as fórmulas convencionais e os apelos comerciais, e que foi decisivo na definição do cinema árabe contemporâneo", avalia.

No MoMA, a retrospectiva começou em 2010, prosseguiu no ano passado e termina este ano. "Jytte e eu a dividimos em três partes, apresentando de 20 a 25 títulos em cada edição. A primeira teve 21, a segunda 25. Nossa seleção não foi cronológica nem por país. Nos interessava justamente mixar sensibilidades, culturas. Mas há um conceito e a nossa curadoria privilegia temas. Por exemplo, o cinema de arquivo e as experiências pessoais, com o resgate de histórias e experiências que foram proibidas. Muitos desses filmes contam a história da liberação, formando uma espécie de arquivo histórico, com o ponto de vista do colonizado e não do colonizador."

Rasha admite que ainda não conhece o gosto nem a sensibilidade do espectador brasileiro. Fez sua seleção para o País buscando uma súmula do que o MoMA mostrou em 2010 e 11. Uma de suas grandes apostas é Viva o Homem, do argelino Mohamed Zinet. "O filme está muito usado, em condições um tanto precárias de conservação, mas achei fundamental trazê-lo porque dialoga de forma muito intensa com o Cinema Novo dos anos 1960. Naquela época, os jovens cineastas brasileiros começavam a ganhar o mundo. Não tenho elementos que me permitam afirmar, com certeza, se Zinet influenciou ou foi influenciado, mas o diálogo é forte e o filme dele, documentário nos limites da ficção, é muito bom."

Ela destaca que a primavera árabe, marcada pela urgência, produziu muitos documentários, mas as ficções começam a aflorar - como Depois da Batalha, de Yousry Nasrallah, que concorreu em Cannes, em maio (e a Mostra Mundo Árabe promete para 2013). E Rasha constata - há muitas mulheres cineastas no mundo árabe, mas, curiosamente, não nos países que tiveram regimes comunistas ou socialistas. As mulheres cavaram seu espaço lutando com os homens contra regimes autoritários e repressores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.