Rasgando o Brasil

Outro dia eu mencionei aqui o ingênuo etnocentrismo brasileiro: aquele que só enxerga o nosso lado bom. Ele não chega a dizer que "ser brasileiro" significa "ser humano", como ocorre em muitas sociedades, mas não vai muito longe disso quando afirma que Deus é brasileiro! As imagens são antigas (eu quase digo perenes). Hoje, há a fábula lulopetista de um país infenso a crises e com reservas inesgotáveis, o que, tirando a desfaçatez, me deixa meio feliz.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2011 | 00h00

Falta-nos, entretanto, o lado dissidente desta autoimagem. Não que o lado positivo deva estar ausente, mas ele precisa ser complementado e despido de ingenuidade. No Brasil convivem muitas brasilidades, do mesmo modo que há muitos Brasis e apenas uma brasilidade. A questão é sempre a de situar com clareza as diferenças sem romper com o quadro geral por explosão ou implosão. Por exemplo: pela morte morrida da oposição e de partidos políticos com programas diferenciados. Não há coletividade sem a dissonância interna que clama por reparações e, no nosso caso, por visibilidade.

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O comovente ensaio-memória do Pérsio Arida no último número da revista piauí, sobre a sua juventude como militante de uma organização clandestina, obriga-me a voltar a escrever sobre esse Brasil incapaz de olhar-se no seu próprio espelho. Como revela o corajoso exercício feito por Pérsio, o Brasil ainda teme romper com certos tabus, muitos dos quais têm a ver com esse esconder-se de si mesmo que está na raiz de tanto desengano e sofrimento; de tanta covardia e atraso; de tantos dramas sociais cuja memória é fundamental para uma existência mais democrática. E a democracia se faz justamente pelo trabalho dessas memórias que revelam uma imensa violência das autoridades constituídas. Disso que chamamos de governo ou de estado que, na sua fúria rotineira ou extraordinária (como aconteceu nas ditaduras), se arroga o direito de cometer todo tipo de arbitrariedade porque tem motivos que a sociedade desconhece. Esse é um dado contundente que a memória do Pérsio trás à luz do dia sem rodeios e com uma candura de espantar.

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Poucas vezes na minha vida, fiquei tão comovido com um texto. Com uma leitura que me deleitava por ter acasalado a beleza do contar com o horror daquilo que contava, sem esquecer o tragicômico contido quando a experiência vira um episódio: algo com início, meio e fim. Nesse texto verdadeiramente extraordinário pela sinceridade, conta-se um virar-se pelo avesso que é marca de toda grande reflexão reveladora da enormidade das forças que nos constroem socialmente e às quais somos submetidos. Esse palco de que falava Shakespeare e no qual todos somos chamados a atuar. Nele podemos virar velhos rabugentos, como Dom Casmurro, ou monstruosos insetos. Não somos o que queremos, mas aquilo que o drama nos induz, com gosto ou não, a fazer. Todos nós, em algum momento, somos traídos por alguma coisa, acusados de algum crime e ameaçados de tortura ou morte que - eis a grande questão - cometemos ou não. A culpa, essa sabotadora que atua por projeção, é um dos elementos básicos da história do jovem Pérsio às voltas com seu grupo que lutava contra um governo ditatorial e queria transformar o Brasil pela raiz.

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Como realizar isso tendo pai e mãe e vivendo num lar burguês? De onde vem essa vontade de exprimir-se abertamente contra o regime sem um pai autoritário e uma mãe conivente? Ou seria essa ausência que leva ao clandestino? Essas questões levam a uma outra: como atuar numa organização revolucionária sendo um subversivo leve, um arrombador de cofres que, na realidade, procederia como um neurocirurgião? Como discordar num momento em que a violência enraizada no estado brasileiro se mostrava claramente no limite de qualquer desacordo. No caso, pela suspensão de todos os direitos e, no limite do humano, por meio de uma selvagem repressão pela tortura que, por meio do suplício, opera às avessas, pois coloca a dissidência dentro do corpo de quem ousa protestar, arrombando o seu interior e impedindo qualquer indiferença, pois tudo que age brutalmente sobre o corpo faz diferença.

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Destaco, sem pretender ser preciso, pois apenas quero compartilhar o modo pelo qual o texto me atingiu, alguns pontos que muito me tocaram.

O primeiro fala de uma amiga comum, Maria Aracy, um personagem que surge quando Pérsio se recuperava da tortura e, em sua casa, prova-lhe como o amor pode substituir a curiosidade e a bisbilhotice. Fiquei surpreso por encontrar naquele círculo de amigos do Pérsio uma pessoa que eu, graças à minha devoção aos estudos etnológicos, naquela mesmo época, também conheci. Aliás, para ser mais preciso e ao mesmo tempo mais grato ao poder da literatura, foram índios xavantes que Aracy conhecia tão bem que provocaram meus encontros com ela. E que agora permitem, com muita emoção, porque ela não está mais entre nós, reiterar numa outra circunstância a sua presença sempre generosa.

(Continua na próxima quarta-feira)

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