Raros diamantes africanos

Gravadoras como a Analog Africa jogam luz na produção musical do continente nos anos 70

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2012 | 03h08

Nos últimos anos, gravadoras como a alemã Analog Africa têm feito um magnífico trabalho arqueológico em partes do continente africano, escavando pérolas que formam um retrato cada vez mais nítido (e estonteante) da efervescente produção musical das metrópoles do continente nos anos 70. De Luanda a Cotonou, no Benin, os lançamentos mostram, entre outros fenômenos musicais, o que aconteceu quando o funk de James Brown voltou à terra mãe e encontrou a poliritmia do oeste africano (pariu um híbrido endiabrado, que vai bem além do afrobeat de Fela Kuti e reproduz funk, reggae e protótipos de hip hop como uma consequência natural do seu DNA). Vide o revival, impulsionado pela Analog Africa no ano retrasado, da propriamente apelidada "toda poderosa" Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou (foto), (a banda esteve no Rio e em Salvador para o festival Perc Pan, em 2010, mas passou batida pelos produtores paulistanos). A Poly-Rythmo fez sucesso nos anos 70. Gravou 500 singles e discos. Acompanhou Fela e Miriam Makeba, mas só ganhou seu devido respeito com os relançamentos Echos Hypnotiques Vol. 1 e Vol. 2, que mostram um pequeno naco do que se passava nos bailões do oeste africano. Puro dendê afro soul psicodélico.

Um outro importante capítulo desta história acaba de ver a luz do dia por obra da gravadora de Frankfurt. Trata-se do disco Bambara Mystic Soul (The Raw Sound of Burkina Faso 1974-1979), lançado no final de outubro e disponível no Brasil pela iTunes Store. A coletânea faz um apanhado dos sons oriundos de Uagadugu, capital da pequenina Burkina Faso, que teve uma efervescente cena musical ao mesmo tempo em que o Congo, a Nigéria e o Mali eram as referências na África. A época em questão viu as orquestras de Uagadugu modernizarem uma sonoridade que teve raízes no período pós-colonial, em que a cultura cosmopolita que restara do domínio francês originou uma demanda por bandas que tocavam calypso, rumba, highlife, valsas e foxtrotes. Embora sob controle do regime militar do coronel Sangoulé Lamizana, a vida noturna de Uagadugu e Bobo-Diolasso, a outra cidade importante de Burkina, era relativamente vibrante nos anos 60 e 70. E na medida em que os discos de Otis Redding, James Brown e dos Stones começaram a tocar nas rádios do país, uma onda de bandas que tentavam imitá-los surgiu, embora ecoando os sons internacionais de uma maneira peculiar, mesclada de forma inconsciente com os ritmos nativos do país.

A pesquisa é de Samy Ben Redjeb, diretor da Analog Africa, que leva a vida fuçando sebos obscuros de países africanos. Em uma de suas visitas a Burkina Faso, Redjeb se deparou com os catálogos da Club Voltaique du Disque (CVD) e da Volta Discobel, as gravadoras mais importantes da época em que o país ainda chamava-se Alto Volta. O custo de uma gravação era alto, portanto as bandas entravam no estúdio prontas para arrebentar - o que não era difícil pois a rotina diária de bailes noturnos as deixava tinindo. Assim, formou-se, em paralelo ao dub, que nascia ao mesmo tempo, na Jamaica, uma sonoridade deliciosamente mal acabada, fomentada pela urgência de lançar títulos, que era maior do que a atenção a qualidade sonora deles.

A figura central de Bambara Mystic Soul é o cantor Amadou Ballaké, o único na coletânea que fez sucesso fora de seu país. Ballaké é acompanhado de sua banda Les 5 Consuls e da Ochestre Super Volta, uma das veteranas do país. O destaque é sua hipnótica Renouveau, um diálogo polirítmico entre duas guitarras que sustenta uma atmosfera meditativa, envolto em qual Ballaké entoa melodias que lembram um lamento flamenco (traços da influência do norte-africano que foi disseminada pela Espanha). Outra joia é Oye Ka Bara Kignan, em que as peças rítmicas se encaixam como um relógio, e Ballaké exibe seu timing impecável, resolvendo frases com a agilidade de um gato que salta da laje. Embora nenhuma das outras vozes da coletânea tenham a personalidade da de Ballaké, o disco é prenhe de grandes faixas, a maioria delas ritmicamente desconcertante como o funk de Tink Tank, do Afro Soul System.

Bambara Mystic Soul é o décimo da Analog Africa, que tem, além dos lançamentos da Orchestre Poly-Rythmo (presença obrigatória no iTunes de quem se interessa pelo balanço africano) coletâneas de sons do Togo, Angola e Benin. Todas são impressionantes, mas a Legends of Benin se destaca com grandes gravações de Antoine Dougbé e Honoré Avolonto.

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