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Raridades do alto Xingu

Em um apartamento na Liberdade, mais de mil negativos de filmes documentam cenas da selva nos anos 40 e 50, além de cartas e documentos que narram a saga de um historiador paulista

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h12

Ao morrer, aos 94 anos, em maio de 2010, o engenheiro paulista Manoel Rodrigues de Oliveira tinha percorrido o Alto Xingu, a estrada de ferro Madeira Mamoré e todo o Alto Araguaia. Estivera com seringueiros em Rio Branco e percorrera a Estrada de Ferro Brasil-Bolívia em território boliviano. Contatou índios xavante, caiapó, trumai, carajá, txucarramãe. Ajudara a buscar os despojos do que teria sido o lendário Coronel Fawcett e a criar o Parque Estadual do Alto Ribeira, e trocara cartas com inúmeros intelectuais, de Câmara Cascudo a Stephen Hawking.

Os documentos que testemunham a vasta trajetória de Oliveira repousam em pastas e cadernos num apartamento quase vazio na Liberdade. Foi ali que a única filha do engenheiro e historiador, Mécia Oliveira, descobriu recentemente as caixas que mostravam que ela estava de posse de um pequeno tesouro. Ao abrir as coisas do pai, foram brotando documentos que podem, eventualmente, ajudar a preencher lacunas e clarear debates historiográficos.

São mais de mil negativos de filmes, fotos tiradas principalmente nos anos 1940 e 1950, no trabalho de campo que o engenheiro empreendeu com uma expedição ao Alto Xingu. Também estão no lote 60 cartas inéditas a ele endereçadas pelo sertanista Orlando Villas Bôas, que foi amigo do engenheiro a partir de 1945, quando se encontraram no Rio das Mortes. Em algumas dessas cartas, raridades como a descrição do primeiro encontro com os Txucarramães; um convite feito por Villas Bôas para que filmasse pela primeira vez a tribo dos Juruna; os telegramas e cartas que documentam o encontro de uma ossada no Amazonas que poderia ser identificada como o Coronel Fawcett.

Há muitas raridades entre as fotos. Numa delas, aparece no trabalho de campo o "terceiro irmão" de Cláudio e Orlando Villas Bôas, Leonardo, que morreu no início dos anos 1960 e do qual se conhecem poucas imagens nessa região. Há fotos aéreas do Rio Tocantins, igarapés, índios em situações cotidianas, na caça e na rotina diária (uma índia camaiurá aparece fazendo beiju, uma comida à base de mandioca).

No dia 14 de dezembro de 1950, Oliveira recebia notícias de Villas Bôas. "Eis que hoje, 14, o céu amanheceu acinzentado e a chuva branca cai desde a madrugada. O sertanejo a chama, e com acerto, de chuva branca, essa chuva monótona e pesada que cai de um céu uniforme de um cinzento pálido."

Foi por intermédio de Oliveira que o sertanista iniciou colaboração com A Gazeta, escrevendo sistematicamente sobre suas expedições. Também foi por meio desses artigos que eles, um dia, passaram a discordar de algumas posições um do outro e a amizade esfriou. O engenheiro procurou demonstrar que Villas-Bâas às vezes sustentava algumas opiniões e convicções por conveniência.

Sentido. Manoel Rodrigues de Oliveira foi um personagem curioso. Engenheiro de formação, conta que, "num domingo ensolarado de junho de 1945", na margem esquerda do Rio das Mortes, decidiu que daria um novo sentido à sua vida. "Eu iria me tornar um pesquisador de documentos históricos, tornar-me um historiador, sem o querer, simplesmente dominado por esse impulso incontrolável de esclarecer, para mim mesmo, algo que me deixara profundamente emocionado, que não me deixava dormir. Por isso, procurei ler tudo que pude: os textos dos historiadores das bandeiras, paulistas, goianos e mato-grossenses."

Tornou-se o que se poderia chamar de um "intelectual de campo". O trabalho mais estimado que legou foi o livro A Ferrovia do Diabo, sobre a estrada de ferro Madeira Mamoré (a aventura ferroviária na selva amazônica, empreendida entre 1907 e 1912, numa extensão de 366 km na qual mais de 20 mil homens trabalharam e onde morreram 1,5 mil trabalhadores). Ele ajudou na preservação de uma série de 189 negativos em vidro do fotógrafo americano Dana Merril, que trabalhou para a companhia que construiu a ferrovia. Também se admite que Oliveira é o realizador do primeiro filme colorido realizado no Brasil, Aspectos do Alto Xingu, apresentado no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 13 de setembro de 1949 (que também está no acervo na Liberdade).

"Eu não conhecia Rondônia e nem o seu governador. Aceitei o convite. Ele enviou-me a passagem aérea e no dia 13 de novembro de 1959, uma sexta-feira, às 13 horas, o avião Super Convair para 44 passageiros, da Companhia Cruzeiro do Sul, partiu do Aeroporto de Congonhas em direção a Porto Velho, capital do Território de Rondônia. O avião fez escala em Campo Grande e à tardinha chegou a Corumbá, capital de Mato Grosso. Jantamos e dormimos em um hotel dessa cidade. Fomos acordados às quatro horas da madrugada e às sete, já no aeroporto, tomamos assento no avião Douglas DC-7 que foi fazendo escalas em Cáceres, Vila Bela da Santíssima Trindade, Real Forte do Príncipe da Beira, Guajará-Mirim, e finalmente Porto Velho, às duas e meia da tarde, quando o avião pousou na pista encascalhada."

Manoel buscou os mitos do Amazonas enquanto teve saúde. Ficou obcecado, por exemplo, pela lenda bandeirante das Minas de Ouro dos Martírios. Tanto fez que conseguiu equacionar os roteiros e ajudou a criar o Parque Estadual dos Martírios, localizado no Alto Araguaia.

"Decidi levar a sério, como se diz, tudo que os antigos Bandeirantes deixaram escrito, os chamados Roteiros dos Martírios, sobre os quais se fizeram tantas ironias, tantos sarcasmos, tantas zombarias. Eu fiz diferente: levei-os a sério. Fui lendo-os sem parar, comparando-os, procurando penetrar no espírito de quem os escrevera, nas suas épocas, para finalmente chegar à uma conclusão: tratava-se de algo sério, verdadeiro, embora tendo sofrido ao longo dos séculos, algumas modificações de escrita, por exemplo", escreveu.

Mécia Oliveira, a filha do engenheiro, acha que o material merece ser preservado, e procura uma instituição séria que queira incorporar o acervo. "É uma coisa preciosa demais que merece ter um destino", ela diz. "Não é porque foi meu pai, mas ele foi um dos maiores historiadores de São Paulo", acredita ela. Além de ter ajudado na criação de três parques, da rodovia Dutra e da Marginal do Tietê, o velho engenheiro envolvia-se em embates de todo tipo. Em 1989, denunciou erro de tradução no livro Uma Breve História do Tempo, do físico Stephen Hawking. O fato levou a editora a recolher e corrigir toda a edição. O físico lhe enviou uma carta de agradecimento (Hawking é deficiente, mas sua correspondência vinha com o sinal em tinta do polegar, para atestar autenticidade).

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