Rapper MV Bill faz campanha de desarmamento

Acusado de fazer apologia ao crime e ao uso de armas, o rapper MV Bill participou hoje do lançamento da campanha "Mãe, desarme seu filho", na favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio. O clip de sua música Soldado do Morro foi exibido durante o evento. Há 40 dias a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) abriu inquérito para apurar se há incentivo ao crime no vídeo do rapper, que mostra traficantes menores de idade armados."O objetivo do clip era chamar a atenção das autoridades e da comunidade para o problema do tráfico", explicou Bill. "Se não mudarem esta situação, outras crianças vão sofrer também", acrescentou, enxugando lágrimas dos olhos. Coordenado pelo movimento Viva Rio e pelo grupo cultural Afro Reggae, a campanha tem por objetivo mostrar para as crianças a importância do desarmamento. Armas de brinquedo levadas pelos menores foram destruídas e trocadas por outros brinquedos. Duas armas de verdade também foram recolhidas.O diretor da DRE, delegado Ricardo Domingues, informou hoje que espera receber ainda esta semana uma cópia do videoclipe de MV Bill e, somente depois de assistí-lo, marcará uma data para tomar o depoimento do rapper. "Quero analisar o vídeo e a música primeiro", disse Domingues. O vídeo tem dez minutos de duração e, na definição de Bill, é um documentário, não apenas um clip de música.Depois de sua exibição hoje, na favela, o rapper respondeu às perguntas de crianças. "Quero mostrar em outras comunidades e fazer o debate." MV Bill afirmou que dificilmente permitirá que o clip seja exibido em emissoras de televisão. "As TVs editam e o vídeo perde o sentido", justificou. O rapper nasceu e foi criado na favela de Cidade de Deus, na zona oeste, onde ainda vive. "Se não fosse o rap, hoje eu estaria num presídio, numa boca de fumo ou num cemitério, morto", contou."Estou fazendo a minha parte, denunciando o problema. Não posso ser acusado do crime de omissão." Respondendo às perguntas das crianças, Bill garantiu que a única droga que já consumiu foi bebida alcóolica. "Já bebi um pouco de cerveja, mas hoje dificilmente faço isso", disso. O rapper afirmou, no entanto, que, nas favelas, todos têm alguma ligação com o tráfico. "Querendo ou não, todos ajudam de alguma forma", respondeu, ao ser indagado se já havia trabalhado com traficantes.Sobre a possibilidade de ser processado por apologia ao crime, Bill disse que não se surpreende com a hipótese. "Já sabia das conseqüências que teria. Vou continuar meu trabalho nem que custe minha liberdade ou minha vida", afirmou. "Mas não quero ser preso para vender mais disco", garantiu. Apesar de toda a polêmica criada pelo rapper, o CD Traficando Informações, lançado pela Natasha Records há 15 meses, vendeu 35 mil cópias.

Agencia Estado,

04 de janeiro de 2001 | 21h00

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