Rap para quem?

Artistas defendem nova postura de rappers que têm se aproximado do 'funk ostentação'

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2013 | 02h14

Em pouco tempo de sucesso com alcance nacional (os holofotes se voltaram para o estilo no começo de julho, após o assassinato do jovem MC Daleste), o chamado funk ostentação já tem seguidores em outros gêneros.A disseminação da ideia de clipes em que são esbanjados carros importados, cordões de ouro, mulheres bonitas, baladas caras e mulheres bonitas (em alguns casos, como se elas fossem objetos) para além do funk tem despertado comentários raivosos na internet pelo fato de essa estética ter chegado ao rap, historicamente considerado a voz musical da periferia.

As críticas - como "adeus rap nacional" e "o rap perdeu espaço para esse lixo de funk", postadas no YouTube - surgiram após o recente lançamento do clipe Estilo Gangstar, de Túlio Dek, no Fantástico e com mais de 100 mil visualizações na internet.

A música, single do próximo disco de Túlio, com previsão de lançamento para outubro, com produção do renomado DJ Cuca e participações de nomes como Edi Rock, Black Alien, DBS, Marina De La Riva, Tony Garrido e Di Ferrero, do NX Zero, entre outros, tem gerado repercussão e dividido opiniões não pela letra, mas pelo "excesso de riqueza" do clipe.

No vídeo, que conta com participação do ex-jogador Ronaldo, são exibidos carros de luxo como Ferrari, Lamborghini e low riders, carrões modificados para fazer saltos e manobras sob três rodas. Além disso, o que tem provocado a ira de parte do público é a participação no clipe de nomes consagrados do rap nacional, como Ice Blue, dos Racionais MC's, e Helião, do RZO, que estariam endossando uma suposta mudança de discurso do gênero.

Muitos não aceitam que os caras que um dia cantaram "Seu comercial de TV não me engana/ Eu não preciso de status nem fama/ Seu carro e sua grana já não me seduz/ E nem a sua puta de olhos azuis" (trecho da clássica Capítulo 4, Versículo 3, dos Racionais) apareçam agora em um cenário luxuoso.

"Os moleques se organizaram e perceberam que o funk ostentação dá dinheiro, é o que abriu a porta, é o que vende o sonho. Caras com dois, três anos de funk já conquistaram coisas que cara com 15 anos de rap não conquistou. Tem cara do funk com oito, nove casas, comprou casa para a mãe. Os caras do rap não conquistaram nem sua própria casa com o rap. E a gente tem que continuar chancelando isso?", questiona Ice Blue, rebatendo as críticas.

"O Sabotage fez cinema, tantos anos de rap, era famoso. Quando ele morreu, você abria os dois braços na casa dele, um barraco de madeira, e encostava as mãos nas duas paredes, era desse tamanho a casa dele. Ele conquistou o quê? Foi isso que o rap percebeu, que existe um fosso entre a ilusão artificial do sucesso e sua vida pessoal. Se hoje eu desse uma declaração de que eu não tenho dinheiro, alguém acreditaria? Vamos perpetuar um negócio que não faz bem para ninguém e continuar sempre na favela?", completa Blue.

A mudança de estética dos clipes que tem chegado ao rap nacional e a abertura do leque de assuntos a serem cantados (não só a crítica social e política, mas também temas variados, como diversão, o cotidiano, o amor, entre outros) têm inspiração no rap dos Estados Unidos, onde o gênero movimenta muito dinheiro e faz parte do mainstream há muitos anos.

Por lá, essas histórias foram contadas com estrutura de superproduções por nomes como Tupac Shakur, Notorious B.I.G., 50 Cent, Kannye West, Snoopy Dogg, Jay-Z, entre tantos outros. "As pessoas falam 'Ah, mas o Túlio não nasceu na favela'. E aí? Todos os músicos têm que nascer na favela para fazer rap? Música não é matemática exata, não tem limites. Não tem ninguém aqui fazendo nada de errado, mandando matar, mandando explodir sede do governo. Quem criticou o clipe não quer que o rap cresça. Quer ver a gente cantando lá na p... que pariu, numa estrada de terra, com o som todo f..., enquanto o rock vai estar no palco principal do Rock in Rio", diz Túlio Dek, refutando as críticas sobre ele fazer "rap de playboy".

"Acho que o que a gente faz está longe de ostentar, mas se querem rotular como ostentação, vamos deixar. O outro vai ser o que, rap pobreza? Os mesmo caras que criticam a gente, veem Sessão da Tarde, cortam o cabelo igual ao do cara da novela, não adianta fazer de conta que não. Se os caras estão incomodados, vão ficar ainda mais", completa Ice Blue, que atualmente finaliza seu disco em parceria com Helião, que sairá pela Baguá Records, mesmo selo que lançou neste ano Contra Nós Ninguém Será, álbum solo de Edi Rock que já tinha uma música batizada de Gangstar, e que lançará o trabalho de Túlio Dek.

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