Rap classe média

O grupo carioca Cone Crew Diretoria faz sucesso na internet e em shows

STEFANIE GASPAR , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2012 | 03h08

No clipe de Lá Pa Lapa, seis moleques fazem manobras de skate, bebem em botecos da cidade e se divertem na escadaria da Lapa - acontecimentos prosaicos embalados por rimas rápidas e intensas. Feito de maneira caseira, um dos primeiros clipes dos cariocas da Cone Crew Diretoria já soma mais de um milhão e 600 mil views no YouTube. Com seu rap de molecagem (seus seis integrantes, Papatinho, Ari, Maomé, Batoré, Cert e Rany Money, têm menos de 30 anos) e narrativas que vão do skate à camaradagem, de injustiça social à legalização da maconha, o grupo já soma oito anos de estrada e lota shows pelo Brasil, com ingressos esgotados semanas antes e muito enfrentamento policial.

"A Cone é um vírus de internet", define o MC Maomé, falando sobre como o grupo conseguiu reunir seguidores muito além de seu círculo de fãs cariocas e ir da Barra para o restante do Brasil. Se o começo foi difícil - com a banda lançando em 2007 seu primeiro disco, Ataque Lírico, comprando 700 CDs no camelô, improvisando capinhas e vendendo a R$ 5 -, hoje o grupo roda o País com o repertório de seu álbum mais recente, Com os Neurônios Evoluindo, que teve mais de 30 mil downloads no primeiro dia de lançamento e terminou com um show da banda transmitido ao vivo por uma Twitcam.

"Inicialmente, em 2004, nós nos juntávamos para trocar ideia, andar de skate e ouvir um som. Decidimos criar um coletivo a partir de uma ideia do Cert. Um dia, depois de torrar um beque na frente do condomínio, ele viu passar um policial da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais, unidade da Polícia Civil do Rio). Daí ele quis tirar uma onda. Como a Core é uma sigla, virou C.o.n.e - Com Os Neurônios Evaporando", explicam Maomé e Rany Money.

Para ver de perto esse fenômeno, fomos até Santo André encontrar o grupo em um dos shows de sua turnê pelo ABC. Hospedados em um hotel com lobby impecavelmente ordenado e silencioso, nenhum dos músicos parecia incomodado pelos olhares de reprovação dos demais hóspedes, enquanto falavam alto e brincavam. O clima era de descontração, mas nunca de anarquia total. É fácil perceber que existe uma preocupação e até um certo calculismo em relação a trabalho e filosofia.

"Nossa base foi toda construída pela web. A gente lançava muita música avulsa, fazia um belo marketing no Facebook, Twitter, para bombar nossos shows. Isso mudou quando começamos a preparar nosso novo disco, lançado ano passado. Começamos a segurar nossas músicas para lançar tudo de uma vez. Daí conseguimos as participações especiais: Shawlin, Marcelo D2 e Don L. Nosso disco faz parte de uma nova leva do rap nacional, que traz influências da galera das antigas mas trata de outros assuntos", explica Maomé, que chama o som da Cone Crew de "rap de vivência".

"Essa galera mais lírica, como Marechal, Criolo, Emicida e Projota, é mais próxima do que fazemos, mas mesmo assim são outros temas: esses caras falam de sentimento, nosso negócio é a vivência, o rolê de rua, o esculacho da polícia", completa.

O grupo é chamado de novo Planet Hemp pelo grupo de Marcelo D2 e BNegão. A Cone não só não nega a denominação como abraça a causa como sua principal mensagem. "Não é apologia à maconha nem à vagabundagem, é apologia ao nosso estilo de vida. Tem um monte de advogado, de juiz, de médico, que depois do trabalho vai pegar uma onda. Isso não desfaz o caráter de ninguém", afirmam Maomé e Batoré. Esse estilo de vida também se reflete em hits como Chama os Mulekes ("Não esquece do beque bom, pede as garrafa pro garçom") e obviamente a citação direta já trouxe problemas para o grupo.

"Em Petrópolis, chamaram a gente pra um evento e a organizadora trancou a gente em uma sala com todos os seguranças só para dizer que não poderíamos falar sobre drogas nem sobre políticos", reclama Rany Money. "Em Brasília foi ainda mais tenso. Em 21 de outubro, alguém chamou a polícia, que exigiu que terminássemos o show na hora, senão todo mundo ia preso. A alegação oficial era que a casa estava vendendo bebidas alcoólicas para menores de idade, mas é óbvio que não era só isso. Quando comecei a falar sobre liberdade de expressão, a polícia logo se armou porque pensou que eu ia falar sobre maconha. Daí soltei uma base do Hino Nacional e eles se acalmaram, mas mesmo assim o show acabou", conta Maomé.

Novas mensagens. Respeitando os artistas veteranos do rap brasileiro e citando a influência de MV Bill, Racionais e Marechal, a Cone Crew quer partir dessa herança para construir uma linguagem que fale também a outro público - da classe média ao moleque de família que nunca passou pelas agruras da marginalidade e da privação.

"Nunca fui preso, nunca fui bandido, nunca morei na favela. Mas existe toda uma galera hoje que sofre por outros motivos, e a luta sempre é difícil. É pra isso que estamos aí. A luta continua, só que continua de outras maneiras. O rap é poesia, pode ser pra todo mundo", completa Maomé.

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