Rammstein ''frita'' os ouvidos e a alma

Banda alemã fez show de impacto visual e duro simbolismo sociopolítico

Crítica: Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2010 | 00h00

Um pano preto cobria todo o palco antes de o show começar. Quando caiu o pano preto, surgiu uma segunda cortina com um grande retângulo vermelho, e som e luzes explodiram atrás, iluminando o público com uma luz sinistra. O pano finalmente caiu. O vocalista Till Lindeman estava parado no centro do palco, olhando para o alto, com um avental de açougueiro, penas vermelhas nas orelhas, uma lanterna dentro da boca. Era como se um carnavalesco esquizofrênico tivesse montado a cena - e imaginado essa espécie de Cirque du Soleil das Profundezas.

Lindeman enxugava o suor com a mão e lambia. Mostrava a língua. Ajoelhava-se. O Via Funchal tornava-se o Inferno de Dante com ar-condicionado. Till Lindeman, rombudo como Arnold Schwarzenegger, movia-se como um androide e balançava a cabeça freneticamente. O show foi predominantemente de metal industrial (esqueça o coté pop do Rammstein; mal entra em cena, é pancadaria full time).

Lindeman até abriu mão dos vocais em alguns momentos, como em Du Hast. A plateia é que cantava mais alto, um rito ensurdecedor de interação entre banda e público ("Du Hast, Du Hast, Du Hast Mich, Du hast mich gefragt/Du hast mich gefragt"), e o tecladinho funcionando apenas como uma sinalização fosforescente em meio à balbúrdia.

Fogos de artifício caíam do teto como meteoros incandescentes. Foguetes eram lançados no público. A fumaça se espalhava, e o "enxofre" irritava narizes e gargantas - mas logo se dissipava, e o espetáculo acelerando. De repente, o tecladista Christian Lorenz desceu do púlpito (uma parte mais elevada no fundo do palco onde ficavam bateria, baixo e teclados) e passou a tocar dentro de um "copo" gigante. De roupa brilhosa, Lorenz olhou para o lado e se abaixou. Armado com um lança-chamas, Lindeman agora "fritava" o tecladista com sua língua de fogo, e este mal tinha tempo de sumir no casulo.

Os músicos marchavam como o exército fascista do filme The Wall (o guitarrista Richard Kruspe até usou uniforme parecido). O público cantava indistintamente todas as letras, em alemão, como Weisses Fleisch, ou em inglês, como Pussy. Estavam de volta os carecas com coturnos pretos e suspensórios - onde andaram? Quem fora de camiseta branca se sentia observado.

O vocalista Lindeman agora ostentava um bacamarte gigante nos ombros, um fuzil cênico. Mas o treco atirava: no final, disparou um rojão, que se estatelou na cabeça do público. O palco cuspia fogo. Bombeiros corriam com extintores. Fogo, suor, aceleração: era como se estivéssemos em alguma cena daquele filme Coração Satânico, de Alan Parker, no núcleo de alguma parte maligna da consciência.

Com máscaras iguais àquelas de cães violentos, os dois guitarristas (Kruspe e Paul Landers) e também o cantor, sopravam por um tubo, e a máscara soltava fogo. Mais de 7 mil berravam (conheciam as músicas antigas, como Sonne e Mein Teil, e as mais novas, como B****) a plenos pulmões. Houve também baladas no meio, baladas expressionistas como Frühling in Paris, hora em que uma terrível melancolia sem esperança invadia o coração. Tinha tanta gente querendo ver que marcaram show extra ontem.

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