Raízes de melodrama

Tapa encena texto de Luigi Pirandello inédito no Brasil

GUILHERME CONTE, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2012 | 03h12

Dois amigos vêm de uma cidade pequena para Roma. Trazem consigo uma prostituta, que, além de prestar serviços gerais de doméstica, faz também os próprios de seu ofício com ambos os rapazes. Tudo vai muito bem até que ela engravida e não se sabe quem é o pai. Está instaurado o conflito.

De Um ou de Nenhum, texto de Luigi Pirandello inédito no Brasil que o Grupo Tapa encena a partir de hoje no Teatro Cacilda Becker, chega aos dias de hoje, em que exames de DNA são feitos em programas de auditório, com um misto de passado e atemporalidade. Se por um lado a questão da identidade paterna fosse facilmente solúvel no mundo atual, a questão humana fundamental permanece como um enigma profundo. Como fica o pacto de liberdade estabelecido entre os três?

"Pirandello trata, nesse texto inesperado, das rasteiras que a vida nos dá", afirma o diretor Eduardo Tolentino de Araújo. "Não são rasteiras morais. É a constatação de que não calculamos tudo. Todos estamos sujeitos a sentir ciúme, e isso não estava planejado. Como ficam as máscaras? Joga-se fora toda a teoria que se colocou como verdadeira?"

A escolha desse texto, de 1929, está inserida em um arco que o Tapa vem traçando nos últimos anos. Pirandello, prêmio Nobel de Literatura em 1934, é um dos três autores a que o grupo tem dirigido o olhar, ao lado de August Strindberg (Camaradagem e Os Credores) e Tennessee Williams (Alguns Blues do Tennessee). Além da montagem de O Amargo Siciliano, que já passou por São Paulo em diferentes versões, o grupo também tem na agulha uma encenação de Vestir os Nus, que ainda não foi apresentada, aqui, na cidade.

De Um ou de Nenhum é parte do estudo que o Tapa vem fazendo do melodrama, seus aspectos e procedimentos. "Pirandello trabalha nas origens do melodrama italiano", avalia Tolentino. "Só que ele faz isso lançando uma luz de autópsia. É um intelectual que olha para suas próprias raízes culturais, no que se aproxima de Nelson Rodrigues, mas que analisa isso de fora, ainda que apaixonadamente."

E justamente por estar centrando o olhar no melodrama, o fato de estar se apresentando nos teatros da Prefeitura, a preços populares, deixa Tolentino com um entusiasmo que há algum tempo não se via. "É um imenso prazer para nós, do Tapa, estarmos fazendo isso, mostrando todo esse repertório ao máximo de gente possível."

Ele também destaca a importância desta nova geração do grupo que vem aparecendo. "São atores que estavam entrando aos poucos, fazendo substituições", explica. Essa talvez seja uma das explicações fundamentais para a longevidade do Tapa. Uma trajetória não só extensa - iniciada em 1979 no Rio e marcada pela mudança para São Paulo em 1986 -, como marcada pelo rigor estético, compromisso com valores éticos e políticos e perene preocupação com a formação de público. "Penso que esse constante diálogo de gerações, tanto nas salas de ensaio como nas oficinas e cursos do grupo, é essencial para estarmos aí nesse tempo todo", diz.

O desafio parece ser, de fato, um motor constante no horizonte de trabalho do Tapa. "Neste Pirandello, não são apenas novos atores em busca de uma linguagem", avalia Tolentino. "Estamos, como grupo, buscando um tipo de teatro que ainda não fizemos. É um autor dificílimo."

Este tipo de abordagem pautou um trabalho intenso com o texto. "Até por conta do verismo italiano em que foi formado, Pirandello cria muitas cenas de conversa que servem como transição entre as 'grandes' cenas", diz. "Nós cortamos muita coisa para sublinhar o drama. Foi um processo de radicalização mesmo, buscando retirar todas as ligações cartesianas."

Para Tolentino, esta peça é um Pirandello que de alguma forma prenuncia, em sua escrita, a roteirização do neorrealismo italiano. "E quando digo neorrealismo me refiro ao (Luchino) Visconti, não ao (Vittorio) De Sica. É um realismo de interior."

O Tapa reforça mais uma vez aspectos intrínsecos de seu trabalho: a busca por uma dramaturgia menos conhecida de grandes autores, um exame atento e profundo dos pactos fundadores dominantes na sociedade e um modo de fazer teatro, na concepção e na execução, contrário às lógicas de produção ditadas pelo mercado. É o grupo exercendo sua rara capacidade de olhar para o que está a um palmo de nossos narizes, mas que, por diversas razões, não enxergamos.

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