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Raízes da humanidade

Mostra exibe variedade da cultura turca, marcada pelo Ocidente e Oriente

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2011 | 00h00

No limite geográfico entre o Ocidente e o Oriente, a Turquia sempre exibiu uma cultura multifacetada, em que uniu influências dos dois lados, além de contribuir com elementos próprios. Frutos desse caldeirão que une modernidade e tradição são observados, entre outros exemplos, em uma cinematografia vibrante, como comprova a mostra Tempos e Ventos, Viagem pelo Cinema Turco, que começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil.

São dez filmes que cobrem um amplo espectro, desde raridades como Esperança, de 1970, dirigido por Yilmaz Güney e considerado um marco na história do cinema turco ao se aproximar do neorrealismo italiano, até a Trilogia Yusuf (que inclui os filmes Ovo, Leite e Um Doce Olhar), do diretor Semih Kaplanoglu, que acompanha a trajetória de um jovem poeta em ordem inversa, da idade adulta à infância. Sobre esse trabalho e a peculiar colcha de retalhos em que vive a cultura turca, Kaplanoglu falou, por e-mail, ao Estado.

Sobre sua trilogia (Ovo, Leite e Um Doce Olhar), qual foi seu principal objetivo?

Desde o início, eu tinha em mente um personagem poeta. Eu também queria filmar em ordem cronológica reversa. Meu objetivo era chegar o mais próximo possível do inatingível da alma do poeta, sua verdadeira natureza, aquilo que traz dentro de si mesmo. A fim de conseguir isso, tive de remover todas as suas camadas, para eliminar os excessos. Como em cada filme a trama volta no tempo - primeiro, sua maturidade; depois, a juventude e, por fim, a infância -, tentei me livrar desses extras.

A Turquia, na verdade, está localizado em um corredor de intercâmbios culturais, a partir do Oeste para o Leste, mas o seu estilo de

referências culturais ainda é preservado. Você poderia comentar isso?

Sim, a Turquia é um país singular. É um antigo império. É por isso que tem a experiência de diversas culturas, religiões e línguas. Eu tive uma educação no estilo ocidental. Mas, com o passar do tempo, percebi que a minha fonte de inspiração e ideais ao fazer meus filmes e criar a minha linguagem cinematográfica eram minhas próprias raízes. Observei que definições como "oriental", "ocidental"e assim por diante nos confinam. Sigo os traços de tradição no Leste e Oeste, no Sul e no Norte e estou preocupado com os recursos espirituais e as raízes da humanidade.

Você acredita que os cineastas têm uma obrigação moral com os seus personagens e também com os seus espectadores?

Com certeza. Acredito que a arte deve elevar o ser humano. Violência, drogas e abuso da sexualidade degradam o homem e o alienam de sua existência. É preciso fazer uma escolha sobre qual proposta é a ideal para se seguir quando se realiza um filme, qual parte do corpo humano pretendemos atingir. Eu fiz minha opção pelo coração.

Quando você cria seus personagens, você usa protótipos? Você chegou a criar algum deles?

Sim, eu olho para todos os protótipos nas mitologias e livros sagrados quando escolho um assunto. Por exemplo, ao tratar da relação pai e filho entre Yusul e Yakub, eu faço referência a José e Jacó, dos livros sagrados. Sigo o mesmo princípio ao criar outros personagens. Para mim, o protótipo é ponto culminante da experiência humana através dos tempos, pois nos oferece aspectos obscuros dos homens. Assim, em um roteiro, primeiro defino como serão os personagens e somente então construo o roteiro.

Qual o principal desafio ao escrever o roteiro?

Eu me preocupo com harmonia e integridade. Para mim, o roteiro é um trabalho de redução (diminuição, eliminação de excessos). Enquanto escrevo, já penso em elenco, locações, objetos, atmosfera. São processos simultâneos. Um ator pode me convencer a alterar algo no script, por menor que seja. O mesmo vale para os outros itens, objetos, local. Talvez essa seja a razão pela qual gosto de escrever o roteiro.

TEMPOS E VENTOS, VIAGEM PELO CINEMA TURCO

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651, centro. De 4ª a 6ª, às 17h30 e 19h30; Sáb. (27/2), às 14h, 16h e 18h30. Sáb. (5/3), às 16h e 18h. Dom. (27/2), 14h, 16h, 18h30; dom (7/3), 16h e 18h

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