Raio X do caráter humano

Falsamente tosco e superficial, seu traço foi "o mais influente da segunda metade do século 20 no Brasil"

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h09

Falsamente tosco, falsamente desleixado, falsamente superficial, falsamente sem noção. O humor de Millôr era como um drible de Garrincha: "Fiz que fui, não fui e acabei 'fondo'." Ele mesmo dizia que seguia a lei do menor esforço. Nada mais ilusório.

Seu traço de humor foi "o mais influente da segunda metade do século 20 no País", ponderou o livreiro e marchand Pedro Corrêa do Lago, quando organizou a histórica exposição Caricaturistas Brasileiros (o mais influente da primeira metade, claro, foi J. Carlos, que fez uns 100 mil desenhos).

Millôr influenciou Glauco, Angeli, Laerte, Reinaldo Figueiredo, Jal, e até seus colegas de redações, como Ziraldo, Henfil, Fortuna, Péricles e Jaguar. Mas quem influenciou o traço de Millôr? Segundo Gonçalo Júnior, nosso grande historiador da gibilândia, foram os gibis norte-americanos sua primeira fonte.

Começou como ajudante de arquivo em O Cruzeiro e sua paixão era Flash Gordon, de Alex Raymond, "que copiou quadro por quadro, nos primeiros anos, marcando milimetricamente onde começava a cabeça, o braço, etc.", segundo descreve Gonçalo em A Guerra dos Gibis (Companhia das Letras). Aos 14 anos, Millôr trabalhou em O Gury. "Foi a maior emoção intelectual e estética de minha vida, quando os quadrinhos chegaram aqui, em 1934, importados por Adolfo Aizen. Um deslumbramento."

Na maturidade, no entanto, refinou ainda mais suas referências, declarando muitas vezes que sua maior influência foi mesmo Saul Steinberg (1914-1999). É evidente, basta comparar sua obra com os desenhos antigos de Steinberg na revista Life ou na Harper's Bazaar.

E qual seria o desafio que os uniu? O ponto de partida parecia ser mais uma caligrafia do que um desenho, algo que só gênios como ele, Jules Feiffer e Will Eisner faziam com tanta facilidade. Essa caligrafia ia se desenrolando como um novelo, em espirais, revelando no percurso flashes de Toulouse-Lautrec, cubismo, Degas.

A isso, associou um jeito implacável de retratar vícios humanos. Para o jornalista e escritor Zuenir Ventura, a força da caricatura está no fato de que "é a arte de revelar não só a cara, mas também o caráter das pessoas". Millôr tinha em seus guaches e desenhos um raio X de examinar o caráter das pessoas.

Um general da ditadura com óculos de aros grossos, desenhado por Millôr, já trazia em sua expressão a marca do terror e do arbítrio, e não era necessário mais do que isso para que soubéssemos do que ele falava.

"Você fala de humor, as pessoas dizem: Luiz Fernando Verissimo é genial, Millôr é formidável. Aí você começa a falar de coisas escritas, humorista não entra, entra um escritorzinho de m... do Nordeste", queixava-se. "Se você falar de Chico Caruso, todo mundo considera Chico Caruso um extraordinário artista. Agora, se você falar de artes plásticas, não entra o Chico Caruso", reclamava, falando do preconceito que o cartum experimenta no País.

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