Vantoen Pereira/Divulgação
Vantoen Pereira/Divulgação

Rainha do Saara

Regina Casé filma 'Made in China', em que vive pregoeira no comércio popular

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h10

Regina Casé participava de um evento com crianças. Chegou com o marido. Um garotinho perguntou: "É seu segurança?" Espontaneamente, ela respondeu: "Ele é a minha segurança". Regina não tem medo de ser piegas e o marido cineasta, Estevão Ciavatta, também não. Se você lhe perguntar o que a mulher representa em sua vida, ele responde rápido: "A minha luz". E você pode jurar que o olho dele fica um pouquinho úmido. Regina e Ciavatta começaram a trabalhar juntos há 17 anos, casaram-se há 14 (em 1999). Ela veio do teatro, do Asdrúbal Trouxe o Trombone, e virou estrela de TV. Ele veio do curta, e também foi para a TV. "Por causa disso, tem gente que me acha traidor", diz.

Muitos anos e programas depois, Ciavatta realiza o primeiro longa, e quem interpreta? Regina. O encontro com os dois faz-se neste estúdio da Freguesia, zona oeste do Rio, onde está sendo filmado Made in China. O projeto começou a nascer em 2003. Há dez anos! Você pode imaginar que numa comédia, e em um filme com a Casé, todo mundo ia querer colocar dinheiro. Foi duro levantar a produção, mas isso é o passado. Made in China está saindo do papel. Há uma década, Ciavatta, que sempre foi atraído pelo Saara - não o deserto, mas a área de comércio popular no Centro do Rio, a 25 de Março carioca -, captou os sinais da mudança.

A Saara sempre foi uma área miscigenada, que abrigava judeus, 'turcos' (e libaneses), além das irmandades negras mais antigas do Rio. Por volta de 2003, começaram a chegar os chineses. E chegaram com dinheiro. Compraram prédios, que transformaram em lojas para expor (e vender) suas mercadorias. Made in China é sobre esse momento de transformação. Regina faz Francis, funcionária na Casa São Jorge, do seu Nafuz. Em frente, fica a Casa do Dragão. Além de vendedora, Francis é pregoeira. E fica o dia disputando clientes com Carlos Eduardo, que banca o chamariz para a loja dos 'chinas'.

Ciavatta, quando vai ao Saara, conhece todo mundo. Mas ele não encontrou o décor de queria, as duas lojas uma de cara para a outra. De qualquer maneira, teria sido difícil com Regina num local tão apertado. "Por que? Você acha que sou alguma diva? Eu, hein? O dia em que eu não puder andar no Saara largo tudo", diz a Casé. Foi uma mistura de praticidade e economia que levou a produção a arcar com umas solução cara, mas funcional. O Saara foi reproduzido em estúdio, outro trabalho prodigioso do diretor de arte Tiago Marques Teixeira, de Tropa de Elite 2.

Houve muita pesquisa para se chegar ao espaço e, depois de levantar as fachadas dos prédios, foi preciso montar as lojas, com suas quinquilharias. O cinema brasileiro pode se orgulhar de seus diretores de arte. Ciavatta orgulha-se. Desde Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, de 2000, Regina não filmava. "Tanto tempo?", ela própria pergunta. Todo ano, suas resoluções sempre incluíam - filmar, voltar a ser atriz, não ser apenas (como se fosse 'somente') apresentadora. Este ano, ela está conseguindo.

Na semana passada, com muita choradeira no set, ela terminou a terceira temporada do Esquenta. O programa só volta à grade da Globo em abril. E o que faz Regina nas férias? Além do filme do marido, ela faz, em janeiro, em São Paulo, o novo filme de Anna Muylaert. De volta ao cinema... "Não sou uma atriz de composição, mas sou muito observadora e crio minhas personagens a partir dessas mulheres que conheço e me encantam. A Francis não tem muita instrução, nunca vai ser mais que aquilo que é na loja do seu Nafuz, mas ela é uma guerreira. Põe a vida no que faz, e eu gosto de gente assim."

O público a adora. Até hoje, ela se surpreende com o sucesso de personagens antigas. Tem gente que a segue desde o Asdrúbal. "Às vezes, tenho a impressão de que faço sempre a mesma coisa, mas as pessoas ficam vendo coisas diferentes." O Esquenta, por exemplo, é um programa de auditório como nenhum outro da Globo. Samba, pagode e, de repente, algum acadêmico para fazer análises eruditas, tudo num clima de festa. "Tenho amigos brancos que se surpreendem com a quantidade de amigos pretos que tenho. E não são racistas nem preconceituosos, é só que as pessoas têm a mania de frequentar gente do seu meio. Graças a Deus que meu avô e minha avó, meu pai e minha mãe pensavam diferente. Eu sempre digo: ''Olha para um preto como uma possibilidade de amizade e daqui a pouco você tem dez, 20 novos amigos'. E assim tem sido."

O programa dura em torno de uma hora, mas a gravação dura seis, sete horas. "A ideia é criar um clima de festa, em que todo o mundo se sinta à vontade. Não dá para chegar e dizer: 'Agora todo mundo feliz, todo mundo rindo.' É preciso tempo para descontrair uma Bethânia ou qualquer outro convidado ou convidada." A banda Revelação tem sido uma presença fixa no Esquenta. Xande de Pilares, vocalista do Revelação, faz o pregoeiro rival de Regina em Made in China. "Eles me convidaram para fazer o Duda e topei. Gosto de aprender e, no caso do Saara, eu comecei lá, como estoquista. Tem sido uma loucura. Faço shows e venho correndo para o estúdio. Tem dias que nem durmo. Decoro falas, isso nem é tão difícil, porque já decoro letras. Mas estou aprendendo, estou fazendo coisas novas, e estou feliz."

Ciavatta não nega que seu filme tem a ambição de refletir o País. "Não é o tema do filme, mas eu acredito muito no Brasil e acho que há um otimismo na história. Mas nas entrevistas não tenho como fugir. Tenho a impressão de que perdemos o bonde. Não temos a disciplina desses chineses e é por isso que eles viraram uma potência mundial. Tenho um amigo que diz que o futuro é mandarim. Quem fala a língua, já tem emprego garantido em qualquer lugar."

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