Raffaelli compara personagem a dramaturgo

Bruno Raffaelli é ator da Comédie desde 1994. Em As Artimanhas de Escapino ele interpreta Sylvestre, o medroso criado de Octave, amigo de Léandre, cujo criado é o espertalhão Escapino. Em entrevista ao Estadao.com.br ele discorreu sobre a seriedade com que se faz teatro no grupo. A que o senhor atribui o enorme público da Comédie-Française tanto na França como fora?Bruno Raffaelli - À tradição. Na verdade, a Comédie-Française é a primeira companhia de teatro da França. O fato de ter sido criada por um rei, Luís XIV, também é relevante.O repertório da companhia tem textos clássicos e modernos. Mas, em turnês pelo mundo, enfatizam-se os antigos. Por quê?A razão de ser da Comédie-Française é o teatro clássico. Claro, fazemos teatro contemporâneo na França. Mas somos conhecidos mundialmente pelos textos antigos que encenamos regularmente, por isso então damos preferência ao teatro clássico fora da França.É famoso o rigor da encenação da Comédie-Française. Como se chega a esse grau de qualidade?Isso é resultado da seriedade com que encaramos o trabalho. Fazemos 20 produções por ano, num total de 860 apresentações em nossas três salas em Paris. Nossa estrutura ajuda muito, temos condições de trabalho que não nos causam problemas. Os horários de ensaio são muito respeitados e um ator da Comédie-Française dedica a ela todo o seu tempo de trabalho. 400 profissionais dão suporte aos atores e diretores em todo o aparato técnico, que inclui diversos tipos de atividade. Mas, mesmo com toda essa estrutura, não estamos isentos de fracasso. É um trabalho constante. O que é necessário para um ator fazer parte da Comédie?Os novos atores são sempre convidados. Não há possibilidade de alguém se apresentar como candidato à vaga de ator. A administração da companhia observa os melhores atores do país, inclusive os formandos em escolas de dramaturgia, como é o caso do Conservatório de Teatro de Paris e da Escola Nacional de Teatro de Strasburgo e os convida para integrar a Comédie. O ator da Comédie-Française também trabalha em Cinema e TV? O que o senhor prefere fazer?Nós podemos trabalhar em outros meios, mas não ao mesmo tempo que na Comédie. Quando entramos para a companhia, somos obrigados a nos dedicarmos exclusivamente a ela. Se somos chamados para um outro trabalho, seja em cinema, televisão ou mesmo teatro, temos que pedir uma licença da Comédie. Quanto a mim, prefiro realmente trabalhar na Comédie-Française, mesmo com esta restrição.Fale sobre seu personagem, Sylvestre.Molière já estava velho quando escreveu esta peça. Acho que ele se sentia cansado e por essa razão resolveu fazer algo mais leve. Eram suas últimas centelhas, e ele sabia que já havia feito coisas maravilhosas. Resolveu brincar um pouco. Sou da opinião de que Molière jogou certos traços seus em Sylvestre, que é um homem medroso e submisso, como um velho à beira da morte. Mas que, quando Escapino lhe propõe uma artimanha, encarna toda sua força e vitalidade perdidas. Assim como Molière que, desiludido com a vida, encontra disposição para escrever esta peça. Sylvestre é uma personalidade fraca que ganha força no meio da peça em função de Escapino, mas retorna ao que era logo após de cumprir seu papel. Jean-Louis Benoit renovou Escapino ou se manteve fiel ao original?Ele ficou no original, ressaltando os aspectos negativos dos personagens, que é como deve ser feito. A esperteza, a malandragem de Escapino estão lá. Não é uma comédia comum, e Benoit enxergou isso. Essas características negativas provocam o riso nas platéias, mas, mais do que o riso, provocam uma reflexão sobre os vícios humanos que os personagens carregam. Esses vícios continuam, daí a atualidade dos textos antigos como este. Molière faz do riso uma arma de reflexão.

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