Radiohead contra a máquina

Thom Yorke e Nigel Godrich protagonizam uma semana de discussões sobre a indústria de streaming

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2013 | 02h19

No domingo, Thom Yorke, vocalista do Radiohead, anunciou a retirada de parte de suas músicas do acervo do popular serviço de streaming Spotify, e reacendeu as discussões sobre uma indústria recentemente saudada como a salvação da economia musical.

A notícia repercutiu entre músicos independentes e fãs, ao longo da semana, e culminou em uma troca de declarações entre Yorke, Nigel Godrich - produtor do Radiohead - e os cabeças do serviço, que lucra cerca de US$ 500 milhões anuais disponibilizando a ouvintes uma coleção de 15 milhões de músicas (o mesmo serviço prestado pelo Terra Sonora, Rdio e Deezer, no Brasil). Como explicação, o cantor tuitou: "Não se enganem, os novos artistas que você descobre no Spotify não serão pagos. Mas os acionistas logo estarão nadando em dinheiro. É simples".

Trata-se de uma pertinente defesa da classe artística, com pormenores complexos. Tido como o modelo para todos os serviços de streaming, o Spotify usa boa parte de sua receita (o acordo com as gravadoras é 70% do total ou US$ 200 milhões) para pagar direitos autorais, e esse total é dividido entre a porcentagem de vezes que um artista tem sua música tocada pelo serviço. Se Beyoncé emplacar um hit que totaliza 1% das contagens, ela ficará com 1% da verba destinada para royalties, ou US$ 2 milhões. Mas essa distribuição é a mesma para músicas lançadas em qualquer ano, o que, na visão de Yorke e Godrich, é irresponsável, pois embora seja justo um hit ficar com a maior parte do dinheiro, grande parte dos royalties é destinada a pagar pelo toques recebidos por artistas mortos ou já estabelecidos (de acordo com o jornal inglês The Guardian, no mês passado, o catálogo do Pink Floyd foi disponibilizado pelo Spotify, e o número de toques recebido por Wish You Were Here chegou a um milhão).

Na terça-feira, Godrich saiu em defesa de Yorke, e ressaltou: "O streaming favorece o catálogo, mas não funciona como uma forma de ajudar novos artistas. O Spotify e a concorrência têm de admitir isso e mudar o sistema de pagamento para novos lançamentos e novos artistas, ou todos os que produzem novas músicas têm de ser corajosos e reclamar. A indústria não tem poder sem música nova", escreveu o produtor em seu Twitter.

O Spotify divide a responsabilidade com as gravadoras e os órgãos de arrecadação e distribuição de direitos, mas, pelo raciocínio de Godrich, se a empresa abrir o capital e enriquecer, continuará pagando a mesma quantia em royalties, e terá crescimento livre sem ter de se preocupar com essas questões. Godrich ainda avisou: "Se as pessoas ouvissem música pelo Spotify em vez de comprar discos em 1973, duvido que o Pink Floyd teria feito Dark Side of the Moon. Seria muito caro".

Em nota, o Spotify respondeu que está "100% comprometido" com novos artistas e que tem projetos para ajudar no incentivo a novos talentos.

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