Marcos D'Paula/AE
Marcos D'Paula/AE

Radio arrastão

Novo disco dos britânicos, The King of Limbs, tem lançamento antecipado e domina o dia na mídia e nasredes sociais

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Não basta ser a banda de rock mais significativa do mundo na atualidade, tem de saber se vender. Essa combinação de qualidade indiscutível de composições e performance colocam o Radiohead anos-luz à frente de seus pares. Assim como fizera com In Rainbows, em 2007, o grupo de Oxford antecipou em um dia o lançamento de seu mais novo disco, The King of Limbs, que rapidamente se espalhou pela internet ainda na manhã de ontem.

Como no álbum anterior, a banda de Thom Yorke apresenta desta vez algumas músicas que já eram conhecidas do público. Nesta semana, em um exercício de especulação feita por fanáticos, o site One Thirty BPM compilou 19 faixas que já haviam sido ensaiadas ou apresentadas pela banda em shows solos do vocalista ou de seu projeto paralelo, o Atoms for Peace. Casos de Lotus Flower, executada em outubro de 2009, no Orpheum Theatre, em Los Angeles - é um dos destaques do disco -, e de Give Up the Ghost, mostrada em 25 de fevereiro do ano passado, em Cambridge. O que já se imaginava, e se confirmou, é que o disco teria apenas oito faixas, como o braço de vendas no Japão havia anunciado sem querer, fazendo com que a informação fosse rapidamente removida do ar.

Ao contrário do que se pode pensar, The King of Limbs não vazou antes da hora. Foi, premeditadamente, liberado pelo grupo um dia antes do combinado. É sabido que vazamentos ocorrem no caminho entre estúdio e gravadora. Como neste caso é a banda - que rompeu com a major EMI faz quatro anos - a controladora de todos os passos do processo, isso se torna praticamente impossível de acontecer.

O Radiohead sabe se vender e atrair os holofotes do mercado mundial. Basta ver o histórico do processo de feitura do álbum. A imprensa e o público sabiam que eles estavam em estúdio, mas sempre nas entrevistas os integrantes da banda tangenciavam o assunto em respostas vagas. Nesta semana, enfim, anunciaram de surpresa, pelo Twitter, o lançamento com a seguinte mensagem: "obrigado por esperar", e um link que levava à página oficial de venda do disco. Anteontem, mais um burburinho. Postaram no microblog um recado em japonês, sugerindo que estariam ontem na famosa Praça Hachiko, em Tóquio. Logo depois a possibilidade foi negada pelo porta-voz da banda.

E muita gente se perguntou o porquê de o Radiohead não ter repetido a fórmula de venda de In Rainbows, que causou barulho na época ao permitir que o público pagasse quanto quisesse pelo produto. O esquema de "pague o quanto vale" foi um laboratório para a banda. Desta vez o preço é fixo, com a possibilidade de comprar apenas o álbum digital (em MP3 ou WAV) ou um pacote de luxo, incluindo dois vinis, um CD e desenhos de Yorke.

Antiletargia. Em termos de som, The King of Limbs é a prova de que a criatividade de Thom Yorke emana de um manancial inesgotável. E tudo se potencializa graças à competência de seus parceiros de banda em conseguir executar tamanhas maluquices instrumentais. O disco é uma prova do amadurecimento e do não conformismo com fórmulas que já deram certo no passado. É uma fuga do limbo - em referência ao título, inspirado em uma árvore encontrada pela banda durante as gravações do último CD. O Radiohead poderia apostar em um tiro certeiro e continuar nos trilhos de In Rainbows. Não, a banda optou pela honestidade de criar temas que seguem um caminho distinto em relação ao álbum anterior.

Embora diferente dos outros discos do grupo, a marca do Radiohead segue impressa em The King of Limbs: a capacidade de criar climas absurdos e fazer o ouvinte passear por diversas atmosferas. Tem a mesma densidade de outrora, é mais viajante e menos pop-hit se comparado com a emotiva House of Cards e as pegadas Bodysnatchers e Weird Fishes, de In Rainbows.

Ano passado, quando Roberto Medina anunciou o retorno do Rock in Rio ao País, declarou que uma de suas vontades era trazer o Radiohead. Agora a banda tem um motivo para voltar ao Brasil. Resta imaginar se temas magníficos como Bloom, Codex e Lotus Flower - com clipe boçal já divulgado - funcionarão em shows para grandes plateias, como a banda se mostrou capaz em 2009 ao implodir a Chácara do Jóquei em uma apresentação histórica.

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