Radical refinado

O engajado cineasta Joseph Losey é o mais lembrado pelas distribuidoras

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h09

Nenhum outro cineasta mereceu este ano tanta atenção das distribuidoras de vídeo como o norte-americano Joseph Losey (1909-1984). Entre os títulos lançados em 2012 estão desde A Sombra da Forca (Time Without Pity, 1957) a um filme pouco visto do diretor, Uma Estranha Mulher (La Truite, 1982), passando por Eva (1962), Cerimônia Secreta (Secret Ceremony, 1968) e a sua obra-prima, O Mensageiro (The Go-Between, 1971).

A esses se somam outros já lançados há algum tempo: O Menino dos Cabelos Verdes (The Boy with Green Hair, 1948), M (1951), O Criado (The Servant, 1963), O Homem Que Veio de Longe (Boom, 1968), O Assassinato de Trostki (The Assassination of Trotsky, 1972), Monsieur Klein (1976) e Don Giovanni (1979). Faltam muitos - afinal, trata-se de uma obra com 33 longas e 5 curtas -, mas com tais títulos já é possível avaliar uma carreira marcada pelo cruzamento híbrido entre marxismo e psicanálise, entre as teorias brechtianas e o requinte visual desse Visconti americano nascido numa família puritana do meio-oeste.

Radical refinado, Losey assinou alguns dos mais belos - e politizados - filmes da história do cinema. Mesmo em seus momentos mais destemperados, foi um grande diretor, formado na rígida escola brechtiana (Losey dirigiu a primeira montagem americana de Galileu, que depois transformou em filme). A rigor, sua obra pode ser dividida em duas fases: a primeira vai de O Menino dos Cabelos Verdes a A Sombra da Forca, que firmou o nome do diretor junto aos críticos. No filme de estreia, realizado no prelúdio do período macarthista, Losey faz de um garoto com cabelos esverdeados uma peça alegórica contra a intolerância ao diferente - e, por extensão, ao "perigo" que ele representa numa sociedade uniformizadora (Losey seria perseguido por atividades "antiamericanas" durante a caça que o senador republicano Joseph McCarthy empreendeu contra "subversivos" nos anos 1950, sendo obrigado a assinar seus filmes com pseudônimos).

Losey reforçaria a carga ideológica presente em O Menino dos Cabelos Verdes no thriller M, remake do clássico M - O Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang. O diretor alemão criou, na Dusseldorf às vésperas do nazismo, nos anos 1930, um molestador de crianças julgado por um tribunal popular de mendigos e ladrões. Losey transporta a ação para os anos 1950, encurralando o culpado numa garagem de Los Angeles para ser julgado de forma sumária por populares ávidos de sangue. Esse sentimento de que a Justiça não pode ser exercida de forma imparcial guia outro tocante filme, A Sombra da Forca, em que um escritor alcoólatra tenta salvar o filho acusado de homicídio. Sua luta é contra a falta de provas. Losey mira diretamente no arbítrio de uma sociedade cujo desejo de punir é maior do que o de justiça.

Os filmes realizados nos anos 1960, de Eva em diante, são menos engajados, mas mais ambiciosos. Alguns traduzem grande liberdade criativa - tanto Eva como O Criado tratam da inadequação sexual e da troca de papéis sociais, o primeiro entre uma predadora e um escritor que humilha; o segundo, entre um aristocrata e seu mordomo. Em O Criado encontram-se os principais temas de Losey: a impossibilidade do diálogo interclassista, o desejo de possuir e dominar o outro, a humilhação dos mais fracos e o abismo entre os sexos. Eva, o mais psicanalítico de seus filmes, usa a água e o espelho (recorrentes na obra do diretor) como signos freudianos para anunciar a tempestade provocada pelo reflexo devolvido da imagem do parceiro, vítima da tentação primal de uma serpente chamada Eva. Também o perverso mordomo de O Criado vê nesse espelho a figura do aristocrata indolente, prestes a trocar de papel e submeter-se a seus caprichos.

Losey já era um exilado, morando na Inglaterra há alguns anos, quando fez O Criado, jogo hegeliano entre senhor e escravo, que depois iria explorar em filmes como Cerimônia Secreta e O Mensageiro. Em Cerimônia Secreta, a dupla sedução entre a órfã e a prostituta que adota como mãe assume uma dimensão patológica, culminando em tragédia.

Em O Mensageiro, com o qual Losey ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de1971, o roteiro de Harold Pinter trata do fracasso das relações entre diferentes classes sociais na Inglaterra vitoriana, elegendo como vítima um garoto pobre usado como pombo-correio entre uma aristocrata e seu rude amante camponês. É do romancista L.P.Hartley, autor da história original, a frase citada logo no começo do filme ("O passado é um país estrangeiro onde as coisas se passam de maneira diferente"). Proustiano (ele queria filmar Em Busca do Tempo Perdido, tanto quanto Visconti), Losey mostra o menino como um desiludido septuagenário que volta ao lugar onde foi o mensageiro entre diferentes categorias sociais. Mas elas só se encontram na cama - aliás, o objeto mais usado nos filmes do diretor.

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