Radical clique

Ninguém atraiu uma coalizão de famosos como Hillary Clinton em 2016

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

05 Março 2018 | 02h00

Qual foi o maior destaque dos Oscars? As mulheres, as armas de fogo ou as minorias raciais? Escrevo horas antes de começar o evento que é a maior plataforma política para a vexada presidência em curso. A controvérsia política na noite de autocongratulação de Hollywood frequenta a premiação há décadas, mas, desde os anos 1970, com a guerra no Vietnã e confrontos raciais, não havia tanta expectativa de engajamento na cerimônia.

Em 1975, os realizadores do documentário vencedor, Corações e Mentes, leram uma carta do embaixador vietcongue agradecendo pelos protestos contra a guerra e oferecendo amizade ao povo americano. A reação foi imediata, aparentemente redigida nos bastidores por Bob Hope, que despachou o republicano Frank Sinatra para dar o recado: a Academia anfitriã da noite não se responsabilizava por declarações políticas e se desculpava pelo acontecido. Dali a pouco, o democrata Warren Beatty entrou no palco balbuciando para Sinatra, “você, velho republicano, você”.

Os produtores da noite do Oscar este ano acharam necessário aliviar a ansiedade sobre sinais de militância e disseram que o anfitrião Jimmy Kimmel, talvez o menos engraçado apresentador de talk-show de fim de noite, ia evitar “pronunciamentos políticos incisivos”.

Para quem não acompanha o apresentador, uma tragédia pessoal colocou Kimmel, em 2017, no centro do debate sobre o seguro saúde Obamacare que o atual presidente prometeu desmantelar. Em maio passado, horas depois do nascimento do seu filho, os médicos detectaram um defeito cardíaco congênito que requereu uma cirurgia urgente e vai requerer outras até a adolescência.

Kimmel usou o monólogo de abertura do programa para relatar, em lágrimas, o susto e se dizer grato pela afluência que lhe permitiu salvar a vida do bebê. E partiu para o ataque sobre a crueldade e a falta de acesso ao sistema de saúde mais caro entre os países ricos. De repente, Kimmel viu sua audiência aumentar, não necessariamente pelas piadas ou entrevistas, mas, quem sabe, pelo ativismo. Logo após o massacre que deixou 17 mortos na escola da Flórida, em fevereiro, Jimmy Kimmel se dirigiu ao presidente cobrando que ele discuta o controle de posse de armas de fogo.

A diferença entre os anos 1970 e a segunda metade desta década é que é mais difícil encontrar Hopes ou Sinatras mantendo acesa a chama da direita. Não só Hollywood, mas todo o ecossistema de cultura e entretenimento se deslocou mais para a esquerda, a partir da eleição de 2016.

Na semana passada, notícias sobre o apoio de celebridades a novas candidaturas à esquerda do PT me levou a reler um famoso artigo de Tom Wolfe, o romancista também célebre e autor de A Fogueira das Vaidades. Publicado em junho de 1970, Radical Chic: Aquela Noite na Casa do Lenny descrevia uma festa na cobertura espetacular do lendário maestro Leonard Bernstein, na qual um grupo de Panteras Negras (atenção, jovens, googlem para não confundir com o filme em cartaz) foi apresentado a socialites e luminares da intelligentsia nova-iorquina. O estilo mordaz de Wolfe fez do artigo um clássico e imortalizou a expressão radical chic para definir com sarcasmo os modismos esquerdistas da elite. A cena descrita por Wolfe era, de fato, surrealista e ele nota detalhes como os “criados” latinos, já que seria uma gafe imperdoável ter um mordomo uniformizado negro servindo vinho a um Pantera Negra preso na semana anterior por suposto porte ilegal de arma. 

Não me consta que haja o equivalente, em dissonância cognitiva, à “casa do Lenny” em saraus cariocas ou paulistas. O que me parece haver, especialmente depois da eleição de 2014, é maior protagonismo de famosos brasileiros, ativos em convencer quem vai aos seus shows, filmes e assiste às suas novelas a dar o voto para fulano ou sicrana. Mas estamos num momento de populismo colérico. Ninguém atraiu uma coalizão de famosos como Hillary Clinton em 2016. Será curioso observar se o abraço de celebridades na eleição presidencial de outubro vai se revelar bote salva-vidas ou precipitar afogamento. 

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