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Racismo e consciência negra

A celebração do último sábado motiva a exprimir e a mudar injustiças que resultaram de um trajeto histórico que passou, mas não acabou

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 03h00

O racismo é um sinistro instrumento de separar, humilhar (e, no nazismo, de exterminar) pessoas diferenciadas por religião, costumes, associação política ou hábitos em geral. No Brasil o “x” da questão é a cor da pele.

Seria impossível listar todas as diferenças que fabricam o preconceito, pois elas mudam com o tempo e se entrelaçam. Só se pode afirmar que os bons e maus costumes dos outros são sempre difíceis de aceitar e mais ainda de compreender. O “x” do nosso caso não é bem esse, é a aparência, o “jeito”. Se for “escurinho” como diz o samba, a coisa pode ficar preta...

O Dia da Consciência Negra motiva - num Brasil de formação “casa grande & senzala”, patriarcal e escravocrata, como bem viu Gilberto Freyre - a exprimir e sobretudo a mudar as injustiças que resultaram desse trajeto histórico que passou, mas não acabou, e que só pode ser transformado pela consciência que valentemente aspira à igualdade e à liberdade no presente: no aqui e agora. 

No caso, a chamada “consciência negra”, que hoje se vê às voltas com a denúncia e a correção da carga das injustiças desse passado. Uma carga que os fatos revelam com veemência, negando a visão do Brasil como sendo somente um país de misturas, mulatismos e encontros harmoniosos. Se eles não podem ser negados, menos ainda se pode deixar de enxergar os conflitos decorrentes dessa formação. 

Nesse sentido, a “consciência negra” se volta para o foco do que é ser negro no Brasil, demandando uma permanente denúncia de convicções pouco discutidas e veementemente negadas. A maior delas sendo o “preconceito de não ter preconceito”, conforme dizia um mestre da sociologia e dos estudos das relações raciais, Florestan Fernandes. Pois tal assertiva é a mais pura expressão de um etnocentrismo confirmador do Brasil como o melhor país do mundo...

Toda consciência de si é penosa porque desfaz fantasias, revelando simultaneamente o seu lado inconsciente e escuro. No Brasil, o fato de que a sociedade carnavalesca na qual tudo daria certo, existe também um autoritarismo e um protofascismo feroz espreitando esse jogo de aceitar, reprimir e protelar ou inocentar pensando menos no crime e muito mais na pessoa. Esse amor e ódio simultâneos pela lei, justiça, mas sempre dependendo de quem é o sujeito.

Por isso, Pedro Malasartes, nosso malandro modelar, seja básico ao lado do “caxias” e do “renunciador” conforme sugeri no livro Carnavais, Malandros e Heróis. Nele eu revelava a duplicidade nacional, que afirma ao mesmo tempo a mudança e a permanência. Ao lado deles, escondem-se o senhor e o escravo hoje cidadão cuja biografia carrega o peso do estilo de vida “casa grande & senzala” vivo neste Brasil no qual ainda vale o “tirar partido de tudo” e no outro Brasil onde a igualdade exige o fim da docilidade hipócrita que a vida urbana desmente a cada segundo. O fim desse drama depende de escolhas eleitorais, todas claramente branquelas.

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