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Lúcia Guimarães
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Raciocínio em frangalhos

Diálogo recente entre um casal jovem, pais de um bebê de dez meses, e a coordenadora de uma creche num afluente bairro carioca:

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2014 | 02h05

Pai: Como é a questão da TV aqui?

Coordenadora: Toda segunda-feira, os pequenos trazem algo de casa para compartilhar. Muitos trazem DVD's. No ano que vem, estamos tentando limitar a um DVD por dia.

Mãe: Nosso bebê nunca assistiu TV.

Coordenadora, perplexa: Como nunca? Não sabe quem é a Galinha Pintadinha?

Mãe: Não tem a menor ideia.

Coordenadora: Mas o que esta criança faz o dia todo?

Mãe: Brinca, passeia, come e dorme.

Coordenadora: Ah, mas televisão é igual à Coca Cola, não? A gente tenta evitar mas, chega uma hora que não tem jeito.

Mãe: Na minha geração, só irresponsável dá refrigerante para criança pequena. Obrigada pelo tempo que passou conosco.

Estamos falando de um estabelecimento privado onde a mensalidade supostamente cobre o custo de uma equipe pedagógica de bom nível.

A Academia Americana de Pediatria alertou o público recentemente para uma estatística nefasta: as crianças nos Estados Unidos estão passando uma média de sete horas por dia diante de alguma tela - TV, computador, smartphone, tablet ou outro aparelho. A Academia, além de reunir mais de 60 mil médicos americanos, é uma instituição de referência para pediatras em outros países como o Brasil. Seus pesquisadores afirmam que as horas diante da tela estão associadas à epidemia de obesidade, à queda do desempenho escolar e distúrbios do sono. E voltaram a fazer um apelo ao bom senso dos pais: no máximo duas horas de TV por dia e, mesmo assim, programação de qualidade. Mas só depois de dois anos.

Desde 2011, a AAP instrui os pediatras americanos e explicar no consultório que nenhuma criança deve ser exposta à TV antes de dois anos. Não é preconceito contra frangos falantes. É pura ciência. A exposição à TV tão cedo afeta memória, desenvolvimento de linguagem e leitura. O mundo físico da criança é tridimensional, o mundo da TV, em duas dimensões. Os bebês "compartilhando" na creche podem ficar olhando para a tela, fascinados com o som e as cores, mas seus cérebros são incapazes de fazer sentido das imagens. Só a partir de dois anos uma criança começa a perceber que o que se passa à sua volta corresponde ao que vê numa tela.

Um novo estudo publicado aqui em julho revelou que o som da TV continuamente ligada numa sala em que a criança pequena não está assistindo, está engajada em outra atividade, também faz mal. Tem impacto na função executiva do cérebro que é uma espécie de comando central responsável por várias funções cognitivas, entre elas organização de memória, planejamento e socialização.

Então, não importa se a galinha é pintadinha ou listradinha. O DVD das segundas-feiras não é para compartilhar nada. É a velha babá eletrônica. A ideia de pais de classe média alta pagando uma nota preta pelo cuidado profissional e recheando as mochilas dos rebentos que mal começaram a andar e a falar com DVD's já assusta. A ideia de que pedagogos consideram apenas limitar as horas de inação a um DVD por dia completa o ciclo de insensatez.

A comparação da TV com a inevitabilidade do consumo de refrigerantes é a capitulação preguiçosa de adultos a uma falsa pressão. Tenho, no meu celular, imagens de bebês extasiados comendo mamão, deleitados quando aprendem a usar o canudo para tomar água de coco. Estão balbuciando suas primeiras palavras e não discursando exigências sobre refrigerantes e eletrônicos. São bebês que passam horas brincando sozinhos ou em grupo e, sim, querem atenção, mas não a que requer valores de produção do George Lucas.

Hoje, os pesquisadores médicos sabem que o simples hábito de falar olhando para os olhos dos bebês e conversar com eles constantemente se reflete no seu grau de desenvolvimento cognitivo já aos 18 meses.

Então, dona coordenadora, desligue a galinha eletrônica e deixe a petizada soltar a franga da imaginação.

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