Rabanada

Sobrou uma rabanada. Huguinho viu que tinha sobrado uma rabanada e começou sua progressão em direção à mesa. Lentamente, a princípio, para não atrair atenções. Depois acelerando um pouco até ter a rabanada ao alcance da sua mão.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2012 | 03h09

Estendeu a mão e...

- Huguinho!

- Quié, mãe?

- Não toque nessa rabanada.

- Mas, mãe.

- Ofereça para a dona Anita.

- A dona Anita já se encheu de rabanadas.

- E você, quantas comeu?

Huguinho tinha comido dez, mas não era hora de dar munição ao inimigo.

- Duas.

- Não minta. Vá oferecer pra dona Anita.

- Por quê?

- Porque ela é visita. Porque não fica bem alguém da casa comer o último pedaço, seja do que for. Porque a boa educação manda que a pessoa mais velha seja sempre melhor tratada.

- Quantos anos tem a dona Anita?

- Não interessa. Acho que uns 68.

- A dona Anita está comendo rabanadas há 68 anos. Eu, só há 12.

- Pois então? Ela está mais perto da morte. Tem menos tempo do que você para comer rabanadas.

- Mas já comeu muitas mais do que eu.

- Huguinho, pare de embromar e ofereça esta rabanada à dona Anita.

- Não, é sério. E se eu morrer nos próximos dois minutos?.

- Só se for de comer tanta rabanada.

- Eu posso muito bem cair morto neste instante. Ou daqui a 20 anos. De qualquer jeito, não terei a oportunidade de me igualar à dona Anita na quantidade de rabanadas consumidas em toda a sua vida.

- Huguinho...

- Eu só quero deixar claro que a proximidade da morte não pode ser critério. Teoricamente, todos aqui podem estar perto da morte. Mas há só uma rabanada.

- Ai, meu Deus. Por que nós fomos botar você numa escola experimental? Qual deveria ser o critério, então?

- Quem chegar na rabanada primeiro. E eu estava chegando.

- Ah é, Huguinho? A lei do mais forte, do mais rápido, do mais oportunista? Onde é que ficam a consideração pelos outros, as boas maneiras, a moral e a ética? Enfim, a civilização?

- Acho que nenhuma forma de civilização resiste a uma última rabanada.

- Você não aprendeu isto nesta casa, Huguinho, e espero que não tenha aprendido na escola. Agora chega de conversa e leve esta... Rabanada! Onde está a rabanada?!

O prato está vazio. Enquanto mãe e filho discutiam, alguém pegou a última rabanada sem ser visto. Fim de conversa.

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