Quinze minutos

Como enfrentar a ameaça existencial de um ataque num país que não compartilha fatos?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2018 | 02h00

No sábado, as telas de mais de um milhão de celulares no estado do Havaí acenderam com a notícia: “Ameaça de míssil balístico a caminho do Havaí. Procure abrigo imediatamente. Este não é um treino.”

Eram 8:09 da manhã no estado do Pacífico, onde vivem um milhão e meio de pessoas. Em poucos minutos, as telas de celulares no mundo inteiro já reproduziam a mensagem, disseminada pelas redes sociais. Cenas de pânico e terror se seguiram por longos e inexplicáveis 38 minutos, até que novo alerta desmentisse o primeiro. Estradas lotaram, houve correria nas ruas, famílias se acocoraram em banheiros rezando. Bueiros foram abertos para depositar crianças na suposta segurança de um abrigo subterrâneo.

Um funcionário apertou o botão errado, confessou o contrito governador do estado para um país atônito. Em outros tempos, a trapalhada aterradora teria sido enfrentada com mais sangue frio? Afinal, a maioria da população americana hoje não tem memórias de infância como se agachar sob a carteira da escola ou colocar máscaras em treinos para um eventual ataque da União Soviética. Hoje, o treino de emergência que as crianças americanas fazem na escola é para um eventual massacre nas mãos de um compatriota armado com centenas de rodadas de munição.

Quinze minutos é o tempo calculado para procurar abrigo, no caso de um alerta nuclear no Havaí. Em dezembro, pela primeira vez, desde a Guerra Fria, os havaianos voltaram a ouvir sirenes de alerta, um exercício que será repetido todo primeiro dia útil do mês. É o resultado do aumento de testes e de ameaças da Coreia do Norte.

Os 38 minutos de suspense aterrador produziram momentos que as crianças morando ou fazendo turismo no Havaí dificilmente vão esquecer. Houve histórias de solidariedade, ternura e outras de partir o coração, como a do pai que tinha deixado o filho mais velho no aeroporto, a mulher estava no trabalho, e os dois filhos mais novos em casa, todos a mais de quinze minutos de distância. Ele correu para casa, escolhendo com quem tentaria sobreviver.

Na era do hacking eleitoral, campanhas de desinformação e notícias falsas, o comentário de um funcionário público havaiano entrevistado por uma rádio me assustou: “Pensei que era invenção do Breitbart News,” disse, numa referência ao site trumpista que fez campanha pelo presidente e pelo pedófilo derrotado no Alabama, além de oferecer uma dieta regular de paranoia nacionalista. Como enfrentar a ameaça existencial de um ataque nuclear num país que não compartilha fatos?

O pânico no Havaí e no resto do país não aconteceu num vácuo mental. Nunca houve um presidente que desmentisse seu Secretário de Estado tuitando provocações a um país inimigo armado com armas nucleares. O Estados Unidos estão para abandonar a política de redução do arsenal nuclear, desenvolver novas ogivas nucleares menores e “mais utilizáveis”, além de ampliar os cenários em que o uso de armas nucleares seria justificado. Na quinta-feira, dezessete ex-oficiais, a maioria da Força Aérea, que foram encarregados de operar o arsenal nuclear americano, escreveram uma carta aberta ao Congresso pedindo legislação que imponha maior controle sobre a capacidade do presidente de “apertar o botão.”

Pouco antes de o susto nuclear ser desarmado, aos 38 minutos, o pool de repórteres de plantão no resort de Palm Beach na Flórida, registrou, no vigésimo sétimo minuto: o presidente acaba de deixar o campo de golfe. Enquanto o mundo prendia a respiração, o homem do botão tocava sua lira com um taco de golfe. Ao sair, procurou acalmar o país? Seu primeiro tuíte foi um ataque ao autor do best-seller Fogo e Fúria: Dentro da Casa Branca de Trump, a quem chamou de doente mental.

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