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Quinhentas

Escreve-se por vaidade e por prazer. Há solidão em todo texto. Como eu dizia na primeira, uma garrafa jogada ao mar com uma mensagem.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 03h00

Você sabe quantos beijos deu na vida? Se a resposta for sim, temo um pouco pela sua sanidade. Algumas pessoas já me perguntaram quantos livros eu já li. Também duvido que alguém tenha perfeita memória de tal número. Quem aqui já fechou um bom romance e disse: “Este foi meu trigésimo sétimo livro?” Creio que ninguém. Nem um virginiano consegue tal proeza! 

Há coisas mais fáceis de serem contabilizadas. Cheguei à crônica de número 500. Em numeral ordinal, aflora o feio vocábulo: quingentésima. No tempo, um duplo estranho: a contemplação da abundância do feito com a incerteza do por fazer. 

O caminho registra muitas críticas a livros, filmes e artes. Sempre tive presente a advertência de Abel Silva (Cordelzinho de Coerências Brasileiras): “Você, crítico de jornal, tome sempre um Sonrisal quando falar do alheio, que trabalho feio é julgar trazendo o peito cheio de fel, rancor e maldade”. É sempre estranho julgar o trabalho alheio, especialmente se produz algo que você não faz ou não poderia fazer. A posição do crítico deve ser muito ponderada, fornecendo aos leitores mais dados para julgarem por si do que a posição de quem leu ou viu antes. 

Meio milhar de crônicas! Impressiona? “Aqui jaz alguém que impetrou quinhentos textos”, “cometeu pensamentos”, “desenhou ideias”, “evocou dramas e alegrias”. Um epitáfio? Não! A família sabe que decidi ser cremado. Serei um punhado de cinzas sem frases ou datas, sem fotos ou sínteses. Assumirei a derradeira forma: cinzas com quinhentas crônicas! 

Escreve-se por vaidade e por prazer. Algumas coisas, ouvi em uma palestra da ABL, “por deleite, outras para pagar o leite”. Há solidão em todo texto. Como eu dizia na primeira, uma garrafa jogada ao mar com uma mensagem. Penso informar e formar: vício de professor que não sai de mim. Suponho, eventualmente, divertir. Diferentemente de um grande romance, a crônica é um gêiser que se projeta, barulhenta, em horário previsto. Depois silencia... Sua beleza deriva da efemeridade, como uma flor ou uma borboleta.

Para lançar uma boia no naufrágio do tempo líquido, seleciona algumas que se tornam livros, um outro tipo de gêiser. Já são quatro volumes. Enfileiram-se na estante, saudando a fé no mercado, em narciso e no prazer. 

Toda cozinheira sabe e todo cronista aprende: a mesma receita tem dias aziagos. As musas não parecem afeitas a contratos e, não raro, ignoram prazos. Como uma sessão de terapia lacaniana, o nexo do discurso ocorre, por vezes, em minutos, por vezes desaparece. O genial Beethoven fez a Nona Sinfonia e fez a bagatela de Pour Elise. Uma coisa compensa a outra? 

Meus leitores são muito fiéis. Há uma fidelidade amorosa, habitual, de muita gente que me envia mensagens a cada novo texto. Claro, existe a dedicação rancorosa e intensa. Há pessoas que parecem ser a forma real dos “dois minutos de ódio” de Orwell, no livro 1984. Um senhor me confessou que lê tudo o que eu escrevo para avaliar como eu posso ser mais medíocre a cada semana. Fico comovido e tomado de cobiça. Comovido pelo imperecível afeto de vetor trocado e cobiçoso da agenda que permite ler o que gosta, o que precisa e até o que despreza. 

De onde surgem os temas? Augusto dos Anjos perguntou sobre a origem das ideias em um soneto: “De onde ela vem?! De que matéria bruta / Vem essa luz sobre as nebulosas / Cai de incógnitas criptas misteriosas / Como estalactites de uma gruta?!” Bem, no meu caso, as ideias fluem dos livros, de uma série vista na televisão, de uma imagem na rua ou de uma conversa. Nunca quis ser o texto “quente” que traduz o acontecimento mais recente, temperatura que obriga aos jornalistas. O redemoinho dos fatos frescos traz atenção. Isso é uma vantagem. Afogar quase tudo nas polarizações preestabelecidas seria a grande desvantagem. Não gosto do barro fresco e evito cinzelar em pedra dura. A crônica é um intervalo entre o imediato e a eternidade. 

O ato de escrever e ler torna-se companhia. Com o tempo, há o risco de virar melhor amigo. Gabriel García Márquez definiu que “o segredo de uma boa velhice nada mais é do que um pacto honesto com a solidão”. Olho, com honestidade resignada, para o passar do tempo que deixa seus rastros no coração e no rosto. A passagem do tempo é incontrolável por nós, filhos de Prometeu. Claro: se os grãos da ampulheta insistem em passar de um êmbolo a outro, eu quero que seja com graça e elegância a maneira com a qual faço o meu “pacto honesto” com cada texto que envio, tomado de afeto e de responsabilidade, a cada querida leitora e estimado leitor. Se algum dia, a partir do que leu aqui, você conseguiu descobrir algo novo, contrariar algo consolidado ou até discordar de forma veemente, creio que meu pacto honesto foi cumprido. Obrigado aos meus revisores Duda, Rose e Val, que ajudaram a irritar menos a mente dos leitores. Obrigado ao Estadão, em especial ao João Caminoto e ao Ubiratan Brasil, bem como ao olhar atento da Eliana Souza e o novo olhar do Francisco Marçal. Devo muito a todos. O maior débito é com vocês, leitores e leitoras. As garrafas que joguei ao mar chegaram até olhares anônimos e ilustres. Algumas foram virando uma adega, outras foram arremessadas de volta em mim. Em tudo a gratidão me invade por destinos superiores aos meus talentos. A retórica manda diminuir nossos talentos para conquistar o público logo ao começo do discurso, como petição de clemência e estratégia. Minha vaidade é ter encontrado leitores e leitoras que sabem das limitações e vivem em diálogo com elas. Sartre disse que o tédio, quando estamos solitários, é sinal de que andamos em péssima companhia. Ele sabia que ler é um genuíno jogo de prazer vital. Obrigado. Estou menos ruim do que na primeira. Cobrem mais qualidade até a milésima coluna. Se eu não conseguir chegar lá, saibam, tentei bastante. 

*Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de O Dilema do Porco-Espinho, entre outros

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