Quincas, com um pé na pornochanchada

Sérgio Machado encontrou no livro de Jorge Amado a Bahia dos seres à margem, marca de seus principais filmes

Luiz Carlos Merten de Recife, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2010 | 00h00

Uma grande decepção e uma belíssima surpresa: as noites de sexta-feira e sábado eram marcadas por forte expectativa no 14º Cine PE, que terminou ontem à noite. Na sexta, o longa de Jorge Durán, Não Se Vive Sem Amor revelou-se decepcionante, embora tenha seus defensores. No sábado, Sérgio Machado mostrou sua adaptação do romance A Morte e a Morte de Quincas Berro d"Água, de Jorge Amado. Cacá Diegues já havia cantado a bola ao Estado, dizendo que o diretor de Cidade Baixa resgatava os três Ps um tanto esquecidos do cinema brasileiro - picardia, baixaria (a versão mais pesada é derivativa da palavra de quatro letras) e poesia.

Há um cinema brasileiro com o pé na pornochanchada. Ele foi sendo relegado a segundo plano e até esquecido durante a Retomada, por mais que Júlio Bressane retomasse elementos pornográficos em seus eruditos Filme de Amor e Cleópatra. Sérgio Machado encontrou um material forte e libertário no livro do escritor baiano. A Bahia que lhe interessa é, conceitualmente, não necessariamente do ponto de vista geográfico, a da Cidade Baixa, dos malandros e das prostitutas, dos seres à margem. Quincas é o protótipo. O ex-Joaquim, funcionário sisudo, após a aposentadoria, caiu na orgia dos cabarés.

O filme passa-se nesta longa noite da morte de Quincas, quando o cadáver, "interpretado" por Paulo José, é disputado pela filha respeitável e pelos amigos pícaros. Todos os caminhos passam pelo cabaré, onde a filha liberta-se nos braços de um negro que termina por realizar as fantasias que a jovem esposa mal esboça no começo - ao falar dos "argentinos" - e justamente a amante argentina de Quincas, Marieta Severo, reinventando-se como prostituta, parte com o corpo num passeio de saveiro, quando a tempestade dá ao velho devasso o enterro que ele gostaria. O filme é uma explosão de vitalidade, como se misturasse as qualidades e até os defeitos (por que não?) de Dona Flor, Ó Paí Ó e Cidade Baixa, mas tudo feito com garra, intensidade e defendido por atores competentes.

Um senão - existem momentos em que a trilha muito alta e o excesso de música sufocam a verve dos diálogos. Seria melhor ouvir o que Irandhir Santos, Luiz Miranda e Flávio Bauraqui estão dizendo, mas pode ter sido problema decorrente da sala adaptada no Centro de Convenções de Olinda (o projecionista Zé Luiz de Almeida defende-se dizendo que os diretores sempre lhe pedem o som no último volume). Quincas estreia dia 14, o filme de Durán já tem distribuição, mas nenhuma data assegurada. Não Se Vive Sem Amor é um filme que incomoda, causa mal-estar. Seus defensores veem nisso uma qualidade, mas essa história de qualificar um filme pelo "incômodo" que provoca é tão infantil quanto desqualificar algum outro por chato. Durán é tão grande diretor e roteirista (A Cor de Seu Destino e É Proibido Proibir) que o incômodo do filme vem do constrangimento que provoca, por seus problemas de roteiro e realização. É a história de garoto sensitivo, que controla o vento, a chuva e o fogo, ressuscita os mortos e, buscando o pai, vira ele próprio o pai de uma família desgarrada. Teria sido bom gostar de Não Se Vive Sem Amor, mas é a excelência do Durán anterior que desautoriza entusiasmos excessivos por seu novo filme.

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