Quincas a divertida missão de Paulo José

Sérgio Machado mostra hoje, fora de competição, o seu filme no Recife

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Inaugurado na segunda com a exibição, fora de concurso, de O Bem-Amado, de Guel Arraes, o Cine PE - Festival do Audiovisual apresenta hoje, também fora da competição, outra adaptação que se propõe a diálogo com o público. Depois de Dias Gomes, Jorge Amado. Sérgio Machado traz ao Recife o seu Quincas Berro d"Água. Você já deve ter visto o trailer. É muito acelerado. O filme é outra coisa. Cacá Diegues diz que Machado traz de volta a picardia e a baixaria para o cinema brasileiro.

"É a minha missão", diz o diretor, rindo, durante o café da manhã com o repórter. Machado está chegando de Salvador, onde mostrou Quincas Berro d"Água para uma plateia de 2 mil pessoas. Foi uma festa. Ele espera que o clima festivo se repita hoje à noite no Cine-Teatro Guararapes. Estarão presentes os principais intérpretes, menos Mariana Ximenes, que permanece no Rio, devido a uma gravação - Marieta Severo, Irandhir Santos, Luiz Miranda, Paulo José. "Paulo foi o maior presente da minha vida."

Quando se voltou para Jorge Amado - havia sido pago por uma empresa inglesa para desenvolver um projeto, mas a coisa não andava; o prazo estava terminando e ele resolveu encarar Quincas -, Machado repetiu o que sempre faz. Desenhou um storyboard, porque escreve melhor se conseguir "ver" as cenas. Nas imagens desenhadas, Quincas tinha o rosto de Paulo José.

Um dia, Machado disse à figurinista Kika Lopes, mulher do ator, que carregaria a frustração de não ter Paulo no papel. Achava que o ator, com mal de Parkinson, não teria condições (físicas) de encarar o desafio. Kika lhe disse que Paulo tinha feito uma operação nos EUA. Instalou um eletrodo no cérebro para controlar os movimentos. Era outro homem. Em 15 minutos de conversa, Machado tinha o "seu" Quincas.

Uma repórter baiana observou a Machado que seu cinema sempre volta à Cidade Baixa de Salvador. A história de Jorge Amado passa-se na Cidade Alta, mas trata do extrato social mais baixo. São as pessoas que interessam a Sérgio Machado. Ele gosta de descobrir a grandeza e conferir uma dimensão épica aos homens e mulheres mais comuns. Só como curiosidade - Machado planeja atualmente um filme infantil, uma adaptação de A Arca de Noé, projeto com Walter Salles. Os bichos que lhe interessam são os abjetos - baratas, bichos-do-pé.

Depois de Onde a Terra Acaba, documentário sobre o mitológico Mário Peixoto, autor de Limite, e Cidade Baixa, Quincas assinala um retorno do diretor a Jorge Amado. Machado já fez Pastores da Noite para TV, e com exceção de alguns personagens, eles são os mesmos nos dois filmes. Isso facilitou a adaptação. "Nem tanto." Os amigos de sempre - Walter Salles, Karim Aïnouz, Eduardo Coutinho - opinavam sobre o roteiro. Coutinho é um Deus para Machado. Edifício Master foi o filme que lhe deu vontade de fazer cinema. "Você entra na casa daquelas pessoas em Copacabana, elas parecem nada e são tudo." Os amigos opinavam, mas o parceiro virtual de Machado era o próprio Jorge Amado. Os atores são todos ótimos, incluindo Irandhir Santos, de Besouro e Tropa de Elite 2. "Todos me diziam que Irandhir não era um grande ator, era gênio, e ele é."

Mas Machado se orgulha de que os quatro protagonistas estejam parelhos - como Wagner Moura e Lázaro Ramos em Cidade Baixa. "Você pode gostar mais de um, mas não pode dizer que é melhor que o outro." O grande desafio é a tempestade. "Fizemos a cena com tecnologia brasileira, de uma empresa de São Paulo, a Tribbo Trip", acrescenta.

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