Quilombolas: depois da resistência, a integração

Zumbi, o mais conhecido líder de quilombo da história, é hoje uma referência distante do nosso tempo. Perseguido pela guarda real portuguesa, foi morto em 1695, um ano após a queda da comunidade de Palmares que liderou. Apesar dessa distância cronológica, poucos sabem que estes grupos, parecidos com o que foi Palmares, ainda são abundantes no país. Até os anos 60, pensava-se que as aldeias negras remanescentes de quilombos (ou seja, comunidades de negros descendentes de escravos rebelados ou mesmo alforriados) estivessem quase todas dissolvidas. Mas segundo dados do Incra, Procuradoria da República, Fundação Palmares e órgãos eclesiásticos, existem no Brasil cerca de mil comunidades de estrutura quilombola, "terras de pretos" ou, ainda, "mocambos". A grande importância da conservação dessas áreas e comunidades está na forte cultura que mantêm séculos a fio, seja na dança, culinária, dialeto ou artesanato.Só no Estado de São Paulo descobriram-se 25 comunidades remanescentes de quilombos. Oito delas participaram do projeto Revelando São Paulo, no Parque da Água Branca, na primeira quinzena de agosto, responsável por trazer diversas manifestações culturais e folclóricas do Estado. Comunidades negras de Sapatu, Nhunguara, Galvão, São Pedro, Pilões, Pedro Cubas e Maria Rosa - todas da região do Vale do Ribeira, a 270 km sudoeste de São Paulo - trouxeram aos paulistas parte do diverso artesanato que praticam. Hoje fazem parte de uma espécie de cooperativa de artesanato que reúne trabalhadores de várias comunidades do Vale do Ribeira, e tem até marca: Raízes da Cultura Quilombola.Fruto da idéia dos próprios quilombolas, o grupo organizou-se com o auxílio do Instituto de Terras de São Paulo (Itesp), que também tem ajudado na busca pelo título da terra. Sete comunidades já foram reconhecidas e tiveram suas demarcações publicadas nos Diários Oficiais do Estado e da União, apesar de ainda não terem seus títulos de terra.Quanto à cooperação artesanal, os quilombolas - que durante anos se sustentam quase completamente da roça - enxergam na atividade um novo horizonte de conquistas. "Agora a gente consegue vender alguma coisa na Caverna do Diabo", exemplifica Sônia Mara de Souza Peneiras, da comunidade de Sapatu. "A idéia é só encaminhar a organização deles e registrar. Quase tudo eles decidem sozinhos", diz Márcio Halla, agrônomo do Itesp que tem ajudado no desenvolvimento do projeto. Sua esposa, Lica Donaire, é designer e fez um trabalho voluntário de criação do logotipo e da etiqueta.Para São Paulo, os quilombolas trouxeram cerca de 300 peças de 50 tipos variados, feitas a partir de 22 materiais diferentes. No seu estande do Revelando São Paulo, erguido em estrutura de bambu coberta com folhas de bananeira e forrada no chão com esteiras de taboa, podiam-se ver abajures, cestas, arapucas, balaios, esculturas afro, miniaturas de canoas, carros de boi, navios, e até mudas de palmito jussara. Os materias usados eram palha de milho, madeira de goiabeira, covo, taboa, cipó tingopeva, cipó imbé, barro, fibra de bananeira, entre outros.Depois da bem sucedida empreitada pela capital (eles venderam 90% das peças), o grupo Raízes da Cultura Quilombola pretende formar uma comissão em setembro, incumbida de contatar lojas de artesanato, feiras e museus. Essa comissão deve também organizar pontos de venda na USP, entre 4 e 6 de setembro, enquanto estarão sendo proferidas palestras sobre Reforma Agrária. Eles também têm planos de se estender até Curitiba. "O grupo já havia definido uma série de lugares, além dos pontos turísticos da região, onde venderiam as peças", explica Halla, comprovando que apesar dos quilombos terem permanecido isolados por muito tempo, hoje seus habitantes estão mais sintonizados com o mundo do que se pensa.Complexa delicadeza - À primeira vista, o trabalho realizado pelos quilombolas pode parecer simples. Mas não é. O resultado final das peças tem uma aparência humilde e bela, como a dos próprios quilombolas, mas sua construção passa por uma herança técnica complexa, difícil de ser realizada, e que requer anos de habilidade.Entre os quilombolas que vieram a São Paulo, a pessoa mais experiente na manufatura de tapetes e esteiras era Sônia Peneiras, apesar dos seus jovens 23 anos. Ela mantinha uma peça em permanente produção, para poder mostrar aos interessados como se trançava uma esteira bonita e forte o bastante para não soltar a palha. "O principal é apertar bem a fibra de bananeira e prestar atenção na ordem de amarrar." Para fazer o tapete, os artesãos adquiriram um pequeno tear, que ajuda na confecção.Ademar Vieira de Almeida, 30 anos, da comunidade de Nhunguara, é especialista em balaios e peneiras. Feitas em bambu, taquara, apó e cipó imbé, suas peças mostram um belo trançado geométrico. "Com a peneira, a gente separa a farinha, para fazer depois a cozinhada", dizia, esclarecendo o preparo da farinha de mandioca. Uma vez que cada peça funciona, muitas vezes, em conjunto com várias outras no preparo de uma receita ou na tecelagem de uma roupa, Almeida acabou incorporando a produção do pilão e das pás de farofa, por exemplo.Mas somente os mais velhos, com mais de 50 anos, conseguem realizar a mais básica de todas as tarefas de um artesão: cortar a madeira da maneira certa e retirar a camada precisa para quase todas peças. Entre os quilombolas mais experientes que vieram a São Paulo, estava "seu" João do Santo Rosa, também de Sapatu. Além de contar detalhes sobre a extração destas camadas de madeira, Rosa também mostrava aos visitantes as cestas que fazia, com os materiais mais variados - uma vez que também conhece sua extração. Senhor de mãos rudes mas de gestos suaves, o que mais gostava de fazer era trocar uma boa conversa com quem passava pela barraca. "Um dedo a mais de prosa e ele dá uma cesta de graça para a pessoa", ironizavam os amigos.

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