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Caterine Vilardo/Divulgação
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Questões de sobrevivência

Alceu Valença recria em três noites seu antológico álbum Vivo!, com a mesma sonoridade contundente de 1976

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2011 | 00h00

Engana-se quem pensa que a tendência de recriar no palco discos históricos na íntegra é nova e vem de fora. Faz tempo que se pratica esse tipo de show por aqui. Primeiro foram os tributos, como os da série Disco de Ouro, do Sesc Pompeia, em 2005, que reuniu até Nação Zumbi e mundo livre s.a. na Orquestra Manguefônica para recriar o antológico Da Lama ao Caos (1994). Os próprios donos dos discos retomaram em outras séries algumas obras-primas, como aconteceu em duas edições da Virada Cultural em São Paulo, em 2008 e 2009, com Luiz Melodia (Pérola Negra), Arrigo Barnabé (Clara Crocodilo) e outros.

Com dois discos pontuais - Vivo!, de Alceu Valença, e Dança das Cabeças, de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, ambos gravados em 1976 -, o Sesc Belenzinho retoma esse filão no Projeto Álbum. Os três shows de Alceu, hoje, amanhã e sábado, estão com ingressos esgotados. Naná e Gismonti estão programados para 8, 9 e 10 de maio (leia ao lado).

Abertura. Registro do show Vou Danado pra Catende, no Teatro Tereza Raquel, Vivo!, que ficou em cartaz entre 1975 e 76, tem história. Alceu tinha se mudado de Pernambuco para o Rio, era contratado da gravadora Som Livre, pela qual lançou seu álbum de estreia solo, Molhado de Suor (1974), mas, como ele próprio lembra agora, era considerado "maldito". A propósito, tinha classificado a canção Vou Danado pra Catende no Abertura - Festival da Nova Música Brasileira (1975), marcado pela significativa presença de marginais do mercado, como Luiz Melodia, Walter Franco, Jards Macalé e Jorge Mautner.

"Sou bendito, mas eles me consideravam maldito", brinca. Isso porque Alceu sempre se recusou a fazer concessões, rescindiu o contrato com a gravadora pelo atraso no lançamento de seu terceiro álbum na casa - Espelho Cristalino (1977), outro clássico -, largou tudo e foi morar na Europa. Em Paris gravou Saudade de Pernambuco, de forma independente, que só saiu no Brasil em CD (sem a capa original) na série Sertanejo e Forró, do Jornal da Tarde. "O disco é meu, virou uma lenda, mas qualquer hora sai. Só preciso arranjar um patrocinador", avisa.

De nordestino, além dele, havia o cearense Ednardo, o alagoano Djavan e a dupla baiana Tom e Dito entre os finalistas do festival, mas Alceu era a verdadeira "abertura" para a música pernambucana e de todo o Nordeste, com suas emboladas, seus aboios, toadas e xaxados eletrificados, poesia surrealista e gritos de protesto, como em Pontos Cardeais, um dos picos de Vivo!. "Fiz essa música para Carlos Fernando (compositor pernambucano, parceiro de Alceu), que inscreveu Vou Danado pra Catende no festival, e quando estava voltando para casa foi preso e torturado pelo DOI-Codi", lembra.

Um trecho da letra diz: "Não quero essa boca jorrando pra dentro/ Palavras e gritos e berros de luz/ E línguas e lábios e dentes sangrando/ No tapa, no berro, no braço e no murro". "Agora, mesmo fora desse contexto, as pessoas conseguem curtir esse disco. A rapaziada está adorando, sabia?", observa. Numa época em que usar cabelo comprido e barba já era motivo de detenção pela violenta polícia da ditadura militar, Alceu incendiou o cenário da MPB pós-tropicalista com um show explosivo, em que as canções emendavam uma na outra, em clima de improviso.

Medos. Além do som, sua figura em cena era algo impactante, que incomodava os conservadores. Na parte interna da capa dupla do LP a sola de sua bota aparecia em primeiro plano, o que foi tomado como provocação demasiado agressiva. "A Som Livre fez um clipe com essa cena em que eu dava um chute durante o show. Só que o avô de uma amiga minha mandava mudar de canal quando passava na televisão. Vendo que isso estava fazendo mal a alguém, pedi para a gravadora tirar a minha própria propaganda do ar", lembra.

Em algumas canções urgentes, Alceu falava nas entrelinhas de sobrevivência entre os perigos daquela fase, como em O Medo, Você Pensa, Edipiana n.º 1 e na citada Pontos Cardeais. Um de seus clássicos, Papagaio do Futuro, gravado originalmente em Molhado de Suor, era um protesto ecológico, quando isso nem se cogitava em virar moda. Essas canções, mais O Casamento da Raposa com o Rouxinol, Punhal de Prata (outra de Molhado de Suor), Sol e Chuva e outras que não entraram no disco, como Vou Danado pra Catende, ele canta nesses shows no Belenzinho, além de outros êxitos.

Zé da Flauta, Paulo Rafael (guitarra), dois integrantes da banda original de Vivo!, estão com ele nesse show. O então estreante Zé Ramalho da Paraíba teve participação especial tocando ukulelê e violas de 10 e 12 cordas. "A sonoridade é praticamente igual à original, vai mudar uma ou outra coisa", diz Alceu, que fez todos os arranjos das canções.

Coerente com sua condição de artista "mambembe", ele próprio saiu pelas ruas do Rio, vestido de palhaço, com um megafone e uma charanga, fazendo propaganda do show, que virou sucesso não só no Rio, mas em território nacional. A partir daí sua carreira decolou.

PROJETO ÁLBUM

Comedoria do Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, tel. 2076-9700. Hoje, amanhã e sábado, 21h30. Ingressos esgotados.

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