''Quero terminar a vida batendo um tambor''

Gil lança CD patrocinado. E diz querer a simplicidade

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Aos 67 anos, Gilberto Gil quer diminuir e diminuir até se tornar um simples homem tocando seu tambor. Não se inspira mais em explicar as complexidades do mundo, cantar os dilemas da existência humana, impressionar a si e aos outros a cada disco. Seu primeiro passo pode ser o álbum que lança agora, Fé na Festa. São treze baiões e forrós cheios de segundas intenções juninas, nove deles inéditos. A forma como trabalha agora também é novidade. Gil, pela primeira vez, é patrocinado por uma empresa privada, a Natura, que bancou gravação, lançamento e turnê. O caminho, para ele, é irreversível. "Por uma gravadora isso não seria mais possível. A indústria está em colapso." Gil recebeu o Estado na última quarta-feira na sede de sua produtora, ao lado da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. E falou, às vezes mais simples, às vezes mais complexo.

Há dois anos você declarou que a composição não o fascinava mais, mas seu disco vem com nove inéditas. O que houve?

O Seu Jorge me mostrou uma nova afinação no violão, diferente, e isso me desencadeou uma vontade imensa, uma busca juvenil. Essas composições são ingênuas, como de um menino que pega o violão pela primeira vez. Eu me sinto assim.

Fé na Festa é um disco para ouvir e dançar, sem precisar pensar muito. Isso é você hoje?

Estou me aproximando daquilo que declarei há anos: quero terminar a vida batendo um tambor. Estou chegando perto disso, menos preocupado em explicar minha complexidade.

E onde aprendeu isso?

Com as porradas da vida.

No Ministério da Cultura, por exemplo?

Ah, muito, muitíssimo. Eu tive que passar quase 6 anos ali na tensão, na cobrança. Eu praticamente não dormia. Costumo dizer que eram 24 horas de plantão ali, "o que é? onde é? onde está o entrave? onde está o desgaste? onde está o perigo?, onde está a arapuca, onde está a armadilha". Imagina isso o tempo todo.

E isso ensina o quê?

Ensina que ainda que você tome todos os cuidados com as cascas de banana, tem de deixar isso de lado. Isso é da vida. É como a música Não Tenho Medo da Vida (do disco novo). "Toda vez que eu vejo um nó, me assalta o temor. Saberei como desatá-lo?" Olha, isso que eu vou dizer é verdadeiro, não é simbólico. Toda vez que vejo um nó, me coloco diante dessa questão: será que eu vou conseguir desatá-lo? Será que eu terei habilidade? Então você aprende que não adianta, a vida vai sempre botar um nó na sua frente. É como dizia Caetano: o homem velho é o rei dos animais (risos). Outra coisa que Caetano diz, Caetano sempre sábio né? Caetano diz: o homem que não morre envelhece.

E você não tem problema em envelhecer?

Eu não, eu tô vivo! (risos)

Música fica mais ou menos importante aos 68 anos?

Mais, porque ela deixa de ser importante. Não tem mais competição, concorrência, procura pelo reconhecimento, "eu sou bom", "eu sou o melhor", essas coisas vão desaparecendo.

E você passou por todas elas?

Todos nós artistas passamos. Isso tudo vai desaparecendo, e você entra em uma relação mais frugal com a música. A música é uma fruta que você só saboreia, a música é a manga (risos).

Essa história de lançar disco bancado por empresa parece ter virado uma espécie de caminho para a sobrevivência.

As gravadoras não têm mais condições disso (bancar o artista), estão descapitalizadas, aquele modelo entrou em colapso. As gravadoras não impõem mais as agendas das rádios, o "jabá" (dinheiro que emissoras recebiam para tocar certas músicas) está na encruzilhada.

Um dos dilemas da nova era será o preço das músicas. Quanto vale uma música?

Em torno de R$ 2 por faixa.

Mas esse preço é justo? Quanto vale uma música de Luiz Gonzaga para você?

Não tem valor. Luiz Gonzaga pode valer R$ 200, R$ 500, R$ 1 mil. É como um quadro de Picasso.

E há ainda a corrente que defende a música de graça.

Essa corrente precisa ser levada em consideração. Para isso, as parcerias com bancos, empresas telefônicas e outras empresas é fundamental. Se eu tenho minha produção financiada por alguém, posso dar minha música de graça. O que me custou produzir essas canções deste meu disco já foi pago. Meu interesse é que as canções cheguem ao consumidor, que sejam ouvidas, não que sejam vendidas.

Mas elas não têm um valor material?

Mas e se esse valor já foi coberto por um patrocínio?

Você não vai querer ganhar mais dinheiro mesmo assim?

Eu nunca ganhei dinheiro com isso, assim.

O artista não vai querer ganhar mais dinheiro com isso?

Até pode querer, mas, digamos, Roberto Carlos. Se ele decide fazer um disco agora e três patrocinadores dão R$ 30 milhões para ele fazer o disco, isso é mais do que ele gasta e muito mais do que poderia arrecadar vendendo.

Mas aí estamos falando de um Roberto Carlos.

Sim, no caso de um Roberto Carlos. No caso de um menino que está começando, R$ 1 milhão, R$ 500 mil.

A saída para o artista é o mecenas, é isso?

Sim, uma mecenato que pode vir do Estado ou até do público. Vários grupos fizeram isso. Há um da Austrália que lançou um projeto de financiamento de seu disco pelos fãs. Eles arrecadaram U$S 2 milhões, gastaram US$ 500 mil na produção e foram remunerados com US$ 1,5 milhão que sobraram. O que está definido é que aquela questão do disco na loja que vai cobrir custo de toda uma cadeia liderada pela gravadora, esse modelo já foi. Os que vão chegar estão em experiência.

Como nada é de graça, você está sendo patrocinado pela Natura. O presidente da Natura, Guilherme Leal, se lançou como vice-presidente de Marina Silva, que pertence ao Partido Verde do qual você é filiado. As relações não começam a ficar perigosas?

Cada um vai definir em que medida se sujeita ao sistema. Você tem artistas que são completamente submetidos ao sistema televisivo, por exemplo, e não é de agora, há muito tempo. Artistas que sujeitaram suas carreiras à presença permanente nos programas de televisão, programas de auditório, processos subsidiados pelo "jabá". E outros não. Digamos que a Natura chegue para mim e diga "nós só aceitamos continuar patrocinando você se você aceitar se alinhar ao presidente da Natura". Cabe a mim dizer sim ou não.

Se você aparece agora no palanque com Marina Silva, dirão que se vendeu ao patrocinador. Se não aparecer, vai trair suas convicções políticas, já que é filiado ao PV há anos. Ficou complicado isso, não?

Mas isso é procurar cabelo em ovo. Não tem que ficar... Isso é a imprensa, diga aí: isso é a imprensa. Não é nem Gil nem a Natura, é a imprensa.

Mulheres ou homens? O que é mais inspirador?

Mulheres, eu diria, inspiram mais. Elas são a fonte da expressividade erótica, no meu caso. Meu sentido de prazer se realiza mais plenamente na idealização do abraço, do beijo, do encontro.

Você sonha muito?

Sonho, muito.

Qual foi seu último sonho?

Ontem à noite eu sonhei com..., com.... Quando acordei estava lembrando. Eu tinha sonhado com Caetano, pronto, lembrei. Caetano do meu lado, conversando comigo.

E o que ele dizia?

Não lembro, mas era ele falando, sempre com aquele tom...

Professoral.

Político (risos).

Vai ver a Copa na África?

Não, eu sou um pé frio. Fui a três copas e em todas o Brasil perdeu.

E quando a Copa for aqui no Brasil? Vai viajar?

Não, vou ficar. Mas se o Brasil for para a final, não sei não se vou pisar no estádio (risos).

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