Quero ser um Beatle

Não é por acaso que até Paul McCartney já foi chamado de ''cover de Paul McCartney''. O mundo sabe: ser este homem se tornou um bom negócio

Chico Felitti, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

O castanho dos olhos do japonês Tadaaki Naganuma lembra o castanho dos olhos de Paul McCartney. E mais nada. Ainda assim, Tadaki não se dá por vencido. Ele escova o cabelo mullet para frente, coloca seu terninho com gravata escura e surge orgulhoso no palco como o McCartney de Tóquio. Seu grupo, o The Silver Beatles, se destaca entre a centena de bandas cover dos astros no Japão com feitos do tipo abrir shows da banda americana The Killers. Tadaaki Naganuma não fala inglês, canta apenas memorizando fonemas de cada palavra. "É uma dificuldade enorme cantar sem entender as letras, mas isso só prova que amo mesmo a música de McCartney", fala em japonês por Skype, com a devida tradução feita por um amigo do repórter.

Paul, o real, deve dividir com Michael Jackson e Elvis Presley o posto de popstar mais imitado pelo mundo. Imitado, perseguido, idolatrado. A obsessão é tanta que o próprio Paul chegou a ser apontado como um sósia de Paul. Sim, este que canta amanhã e segunda no Morumbi seria um impostor. O verdadeiro estaria morto. Uma insanidade criada por um DJ nos anos 60 que só prova o poder do conceito "cover" quando se trata de Paul McCartney. Insanidade? Menos. "O fanático só é doente quando deixa de ter a vida dele, quando deixa de comprar comida para comprar disco e, assim, se destrói", diz Marcia Almeida Batista, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

O sul-africano Faraji Tappe, 24 anos, canta como Paul cover em shoppings na Cidade do Cabo. Ser um Paul fake, para ele, requer um profissionalismo extremo que inclui, além de saber tudo de música, ter aulas de teatro. "Se o artista não tem os tiques de olho e os movimentos, além do cabelo e nariz do Paul, para que se dizer um cover?" Mais longe vai o Paul da Finlândia localizado pela reportagem. Tapani Lepomaki, 54 anos, deixaria a psicóloga da PUC um pouco mais preocupada. Aparentemente uma pessoa normal, Tapani trabalha seis horas por dia no desenvolvimento de softwares e gasta seu salário comprando "absolutamente tudo o que é lançado sobre, pelos e para os Beatles", como diz. Para guardar sua idolatria, ele resolveu comprar também uma outra casa.

A espécie de indústria Paul McCartney S.A. é algo que poderia render mais direitos autorais de imagem ao ex-beatle do que as próprias canções. No entanto, quem imita teoricamente pratica uma homenagem - e até hoje astro nenhum se dispôs a tirar dinheiro de um fã fofo desses com um ato impiedoso e impopular. Assim, ser Paul McCartney se tornou uma função rentável e livre de impostos. Os checos que querem contratar o The Boom Beatles Band and Orchestra para sua festa de formatura, por exemplo, não pagam menos de US$ 7 mil de cachê. E olha que a República Checa é um raro caso de país que não dá muita bola aos rapazes de Liverpool. Pavel (Paul, em checo) Nepivoda é o McCartney da Boom Beatles Band. Mas poderia ser o Emílio Santiago cover que daria no mesmo. "Meu país não tem ouvido para os Beatles. A maior parte das pessoas não conhece sequer uma música deles", diz o mais angustiado dos Pauls ouvidos pela reportagem. Já os japoneses do Silver Beats cobram US$ 10 mil se o show for no Japão e US$ 30 mil se for em outro país. A "autodesvalorização" do cachê em um dos países que mais idolatram os fab four pode ter uma explicação na lei da oferta e da procura. Tóquio, que recebeu os Beatles em um histórico show de 1966, tem um dos maiores mercados para os covers dos ingleses, com uma média de 120 bandas cantando Yellow Submarine.

Ser Paul McCartney, claro, tem seu preço. E quanto mais Paul McCartney se quer ser, maior a fatura. Regra número 1: o interessado deve tocar baixo como se fosse canhoto. O brasileiro Ricardo Junior, da banda Beatles 4 Ever, começou a vida de beatle aos sete anos, quando apareceu em um comercial da TV de Goiânia na pele de um dos ingleses. Destro, teve de se adaptar ao "canhotismo". "Comprei um baixo todo ornamentado, que só existia para canhotos. Tive de treinar por meses com meu violão do lado contrário, mas valeu a pena." Já Pavel, o Paul checo, nunca se adaptou. "Fiz parte de outra banda cover, mas acabei sendo expulso porque não consegui me acostumar a tocar com a mão esquerda."

Dois anos mais velho que o original, o Paul genérico da Tailândia tem 70 anos. Ele se chama Sitthiporn Amonpant e já acumula quase quatro décadas de carreira com sua banda The Better. Já deve ter tocado Let it Be mais que o próprio Paul. Dono de uma boate em Bangcoc, contraria o que seria a regra número 2 ao dizer que não sente "discriminação" pelo fato de, fisicamente, ser bem diferente do Paul inglês. "Eu tenho uma cor de pele como a da maioria dos brasileiros, acho. Não posso fingir que sou inglês, mas sou Paul McCartney mesmo assim."

E a regra número 3, vestir-se como Paul, pode ser a mais perigosa, a que pode levar um Paul genérico para o buraco. Os Beatles, de sua fase terninho às calças boca de sino, passando pelas fardas psicodélicas de Sargeant Peppers e pelo flower power de Rubber Soul, se tornaram um grupo tão sonoro quanto visual, desafiando eternamente seus imitadores. John Katirtsides, um Paul da Austrália, diz que a peruca de cabelo desfiado alto e o jaquetão militar psicodélico é o máximo que consegue usar para imitar o ídolo. "E olha que às vezes as pessoas nem reconhecem que eu sou Paul." Os japoneses, reverenciais e respeitosos, têm ciência de que, no máximo, cantarão parecidos com os ídolos. Ao saber da reportagem que Paul está para fazer dois shows no Brasil, Tadaaki Naganuma, o Paul de Tóquio, manda um recado ao Paul da vida real. "Diga que ele é o único."

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